Greve dos ruralistas aumenta pressão sobre governo argentino

A nova paralisação anunciada nesta semana pelos produtores rurais na Argentina aumenta a pressão política contra o governo da presidente Cristina Kirchner. No ano passado, quatro meses de paralisações e bloqueios promovidos pelos ruralistas contra um projeto o governo que aumentava impostos para exportações já havia provocado um forte desgaste na popularidade da presidente e culminou com a derrota de seu projeto no Congresso.

BBC Brasil |

Parlamentares da oposição e prefeitos de diferentes cidades do país reuniram-se no Congresso Nacional na quarta-feira para discutir como reunir votos para tentar derrubar o veto da presidente a um projeto que previa a redução de impostos para as regiões afetadas pela recente e histórica seca.

Os líderes dos produtores rurais disseram que foi este veto, somado à falta de diálogo com o governo, que os levou a realizar uma nova greve, com uma semana de duração, até a próxima sexta-feira.

"A presidente poderia percorrer o interior do país para ver qual é a realidade do campo. Muitas regiões estão sofrendo para conseguir pagar suas contas", disse Mario Llambias, presidente das Confederaciones Rurales Argentinas (CRA).

Abastecimento

Segundo Llambias, o protesto não afetará o abastecimento interno. Mas o grupo, formado por quatro entidades, disse que novas formas de protesto poderão ser adotadas se não conseguirem ver atendidas suas exigências.

Na greve do ano passado, os bloqueios de estradas provocaram desabastecimento em algumas regiões do país.

O produtor rural Ricardo Buryale, também das CRA, disse que o governo vetou uma medida que ajudaria o setor rural, mas "desembolsou" dinheiro para estatizar as transmissões de futebol.

"O governo vetou uma lei que significaria 500 milhões de pesos para o setor rural. Um setor que gera, pelo menos, bilhões de dólares anuais aos cofres públicos. E preferiu gastar 600 milhões de pesos para estatizar as transmissões de futebol", afirmou.

O deputado opositor Francisco de Nárvaez, da União Pro, autor do texto da redução de impostos, disse que a decisão do governo de vetar a medida "não foi uma boa notícia".

"Esse veto foi um erro histórico", disse o parlamentar.

Conflito

O economista Fausto Spotorno, da consultoria OJF, de Buenos Aires, acredita que a situação provocada pelo veto do governo à ajuda não deve gerar um conflito tão grande com os ruralistas como no ano passado.

"Mas tudo vai depender do tempo real desta greve e da relação do governo com os ruralistas", disse Spotorno à BBC Brasil.

Para os ministros da Produção, Debora Giorgi, e do Gabinete (equivalente a Casa Civil, no Brasil), Aníbal Fernández, o protesto "não faz sentido".

"Nós estamos abertos ao diálogo. Sempre estivemos. Mas não poderiamos aprovar essa lei e castigar o país inteiro", afirmou Fernández.

Por sua vez, o ex-presidente Kirchner, deputado eleito, disse que é "lamentável" o retorno da greve rural - um dos principais setores da economia do país.

'Maquiagem'

Mas na opinião do deputado opositor Adrian Pérez, da Coalizão Cívica, o veto "só servirá para gerar conflitos" em alguns setores do país.

"O governo não mostra nenhum interesse em resolver os problemas que temos hoje no país. A maquiagem dos dados oficiais, o aumento do desemprego e, agora, ainda por cima, esse veto. Medida que só contribui para gerar conflitos", afirmou Pérez.

Nos últimos tempos, analistas econômicos e investidores afirmam que a "maquiagem" dos dados oficiais é um dos principais problemas para a falta de confiança dos correntistas e investidores na Argentina.

Uma reportagem publicada na quarta-feira no jornal Clarin indicou que o Indec, por recomendação do governo, não realiza o Censo Agropecuário desde a posse, em 2003, do ex-presidente Nestor Kirchner, marido e aliado político da presidente.

Segundo levantamento do Clarin, o setor rural sofreu "fortes quedas" na exploração deste braço da economia nos últimos anos, apesar do período de expansão recorde do Produto Interno Bruto entre 2003 e 2007.

Em Estados como Santiago del Estero, Mendoza e Rio Negro, o total de produtores rurais caiu mais de 20%, entre 2002 e 2008.

Crise

Os conflitos com o setor rural, um dos mais importantes da economia argentina, ocorre em meio ao forte impacto da crise econômica internacional sobre o país.

O FMI (Fundo Monetário Internacional) prevê uma contração de 1,5% no PIB argentino neste ano. o que interromperia uma série de fortes altas iniciadas após a crise de 2001-2002.

Nesta semana, a situação da economia argentina foi tema de pelo menos três seminários internacionais em Buenos Aires. Num destes encontros, promovidos pela universidade de Tel Aviv, os economistas Ricardo Arriazu e Miguel Kiguel disseram que a economia deverá encolher até 3% este ano.

No entanto, Mario Blejer, conselheiro do Ministério da Economia, disse que a alta nos preços das commodites no mercado internacional sinaliza que o estado da economia argentina vai melhorar.

"A Argentina precisa de US$ 5 bilhões para fechar suas contas nos próximos dois anos. Não é muito para um país deste porte, mas o problema da Argentina é a confiança", destacou.

FMI

A Argentina não tem acesso aos mercados internacionais de crédito desde que declarou o calote da dívida em 2001.

Hoje, segundo Kiguel, a Argentina registra uma taxa de risco país maior do que a da Venezuela, da Ucrânia e da Rússia, por exemplo. Esta taxa é um termômetro para a possível capacidade de pagamento de um país.

O ministro da Economia, Amado Boudou, se reuniu com o diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental, Nicolás Eyzaguirre, na quarta-feira.

"Este é um momento adequado para uma volta aos mercados financeiros internacionais, justamente porque quase não precisamos", disse Boudou.

A Argentina, como o Brasil, quitou sua dívida com o FMI em 2006. E desde 2007 o governo evitou visitas de integrantes do Fundo ao país para revisão de suas contas.

Porém, o país precisaria agora, segundo vários economistas, aceitar esta revisão anual e resolver a questão das dúvidas sobre os dados públicos sobre a economia para voltar a ter o aval do Fundo e o acesso aos mercados internacionais de crédito. "Estamos abertos ao diálogo com a Argentina", disse Eyzaguirre.

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