Governos criam manto de segredo para proteger serviços de inteligência

Entenda como funcionam os bastidores da polêmica área de informações, crucial para localizar e matar Osama Bin Laden no Paquistão

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

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O terrorista Bin Laden foi morto após ser localizado por agentes de inteligência
A bem-sucedida operação que resultou no assassinato do terrorista saudita Osama Bin Laden , no domingo no Paquistão, não foi meramente um movimento tático. Contou com um componente fundamental, a Inteligência, necessária para localizar o alvo número 1 dos Estados Unidos e planejar a ação. Trata-se de um trabalho silencioso, complexo e polêmico.

A área de inteligência opera sob o manto do segredo e, quase sempre, na obscuridade. Os agentes são os operadores do silêncio e, por vezes, precisam sujar as mãos com consentimento dos superiores, que querem o trabalho feito e fecham os olhos para os meios usados. Atuando sob constantes dilemas éticos, o serviço de Inteligência é bem-vindo por governos quando funciona com eficiência, e maldito quando falha.

Uma ação considerada perfeita é aquela em que o objetivo é atingido sem que se desconfie da participação da Inteligência. Exemplos bem-sucedidos são a do mitológico cavalo de Troia – dado como “presente” por gregos para infiltrar soldados em uma cidade murada –, o desembarque dos Aliados na Normandia – ludibriando os alemães –, e o apoio da CIA (Agência Central de Inteligência, dos EUA) aos afegãos contra a invasão da União Soviética, nos anos 80, durante a Guerra Fria. Mesmo quando descobertos, ou após o sucesso, há detalhes que nunca são revelados por serem consideráveis “sensíveis”.

No Afeganistão, a CIA entregou armas a rebeldes afegãos, operando a partir da fronteira do Paquistão – país onde Bin Laden foi morto – com a meta de forçar a saída de tropas soviéticas do país. Em 1979, a CIA começou a fazer “atividades especiais” secretas, gastando US$ 500 mil em propaganda e operações psicológicas e dando dinheiro vivo aos aliados. Fuzis comprados clandestinamente e bazucas passaram a ser mandados para os rebeldes enfrentarem os modernos tanques e helicópteros soviéticos.

Em troca do apoio logístico e do ISI (Serviço de Inteligência do Paquistão – hoje acusado de ter protegido Bin Laden), o Paquistão recebeu US$ 3,2 bilhões e permissão para comprar jatos americanos F-16. O programa afegão de compra de armas passou de US$ 30 milhões, em 1981, para US$ 200 milhões em 84 – dobrado pela Arábia Saudita, que passou a pôr US$ 1 para cada US$ 1 do governo dos EUA – e chegou a US$ 630 milhões em 1987.

RPGs (lançadores de granadas), fuzis e metralhadoras de grosso calibre vinham da China, da Grécia, Turquia e Polônia. Mas foram os cerca de 2,5 mil mísseis Stinger, introduzidos em 1986, que mudaram a guerra. Eram armas de ombro portáteis, duráveis e fáceis de usar. Com sistema automático infravermelho guiado por calor, bastava apontar em direção aos helicópteros de ataque e aviões de transporte russos e esperar para vê-los serem atingidos e cair. Foram cruciais na derrota russa – mais tarde, nos anos 90, a CIA recomprou os mísseis, pagando de US$ 80 mil a US$ 150 mil para evitar seu uso em terrorismo.

A arte de ludibriar

AFP
Grupo de sequestrados das FARC, após serem resgatados por ação de inteligência do Exército colombiano, com apoio dos EUA
Outras operações são perfeitos exemplos da arte do engano. Em julho de 2008, a Colômbia resgatou – com apoio logístico e de inteligência dos Estados Unidos – 15 reféns (a senadora Ingrid Bettancourt, três americanos e 11 militares e policiais) sequestrados pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), na Operação Xeque-Mate.

Militares colombianos interceptaram as comunicações das Farc, decifraram seus códigos e passaram a falar por rádio como se fossem guerrilheiros, dando ordens aos captores. Instruíram-nos a juntar os reféns e a levá-los até um local na Amazônia, onde seriam realocados por helicópteros de ação humanitária. Militares sob identidades falsas de jornalista, médico, enfermeira e agentes humanitários estrangeiros ludibriaram a guerrilha e libertaram os prisioneiros, sem uso de violência.

Codinomes e histórias-coberturas (explicações que justifiquem o personagem) são padrão, acompanhados de identidades falsas. A busca de informações inclui eventualmente delitos, como interceptações telefônicas não autorizadas, mas também medidas triviais, como a análise do lixo do alvo. Dali se podem tirar muitas informações, como remédios usados, números de telefones, documentos, projetos, etc. Isso explica por quê, como medida de segurança, Bin Laden queimava todo o lixo da casa no Paquistão .

Sendo a espionagem considerada crime por Estados – a não ser quando se trata de sua própria –, o mais comum disfarce de agentes no exterior é o de diplomata, que garante proteção privilegiada e uma boa história-cobertura que justifique sua presença. Para amigos e parentes, o título vago de “funcionário público” é a explicação do trabalho. Agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) são muitas vezes alocados em ministérios para investigar casos de corrupção ou “ameaça à segurança nacional”.

Fracasso pode expor bastidores sujos

Reprodução
Espiã russa faz ensaio sensual após ser descoberta
Nem sempre o sucesso é possível. Em algumas situações, a identidade ou operação é descoberta, agentes são presos no exterior e se inicia uma crise diplomática. Inúmeros são os casos de espiões presos durante a Guerra Fria. Um recente episódio que se tornou público envolveu a suposta agente russa Anna Chapman , detida no Reino Unido. Ela virou modelo, não sem antes causar um grande mal-estar.

Como mostra o livro “Blowing my cover – my life as a CIA spy” (“Detonando minha identidade falsa – minha vida como espiã da CIA, em tradução livre), de Lindsay Moran, os agentes da CIA são treinados para nunca revelar sua identidade, mesmo sob interrogatórios violentos.

Passam por rígidas avaliações psicológicas, pesquisa da vida pregressa, detectores de mentira e testes médicos. Aprendem a despistar inimigos, romper barreiras em um carro e saltar de aviões. Nos EUA, muitos jovens são recrutados após sair de universidades de elite.

O fracasso de uma operação pode revelar os bastidores “sujos” do trabalho. Foi o que ocorreu na Invasão da Baía dos Porcos , como ficou conhecida a tentativa frustrada de 1,3 mil cubanos exilados recrutados pelos EUA, com apoio da CIA, de invadir a ilha para derrubar o regime socialista de Fidel Castro, em abril de 1961. A invasão foi debelada em três dias e representou um histórico fiasco do governo John F. Kennedy, que assumira o cargo havia apenas três meses.

Um erro de avaliação e reconhecimento da inteligência da polícia londrina resultou no assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um terrorista responsável por detonar bombas na capital inglesa. A investigação revelou uma série de equívocos da ação, mas ninguém foi punido.

Agência O Globo
No Riocentro, bomba explodiu antes da hora do atentado previsto e matou agente de informações do Exército
No Brasil, o caso mais conhecido foi o atentado do Riocentro, em 1981. Um grupo terrorista secreto, com ramificações na inteligência do Exército, pretendia explodir bombas no centro de convenções do Rio durante show em comemoração ao dia 1º de maio. Um explosivo foi detonado, por falha, no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, sentado em um Puma, ao lado do capitão Wilson Machado. Rosário, ou “agente Wagner”, morreu; o oficial ficou ferido gravemente. Ambos eram da área de informações. O episódio expôs o grupo civil-militar e seu apoio dentro da comunidade de informações a atentados contra a redemocratização no país. A investigação militar nunca apontou outros culpados.

Outro episódio mais recente, também no Rio, envolveu a Inteligência do Exército na recuperação de dez fuzis e duas pistolas roubadas de um quartel, em 2006. Após 12 dias de megaoperação que mobilizou 1,6 mil militares, agentes negociaram e fizeram um acordo sigiloso com traficantes do Comando Vermelho para retomar as armas. O grupo as recuperou em uma noite de domingo e, em troca, na segunda, o Exército retirou as tropas da rua. Apesar de já ter as armas, no dia seguinte, sob suposto objetivo de encontrar os fuzis, a Força enviou 400 paraquedistas à Rocinha (da ADA, facção rival), onde alegou oficialmente tê-las encontrado – sem mostrar o local, nem apresentá-las lá.

A imprensa descobriu o acordo, que envolvia o fim da operação de asfixia ao Comando Vermelho, o que foi cumprido; a apresentação das armas como se tivessem sido apreendidas em favela de facção rival (Rocinha); e a transferência de um líder do CV preso de Bangu 1 para Bangu 3 (o governo confirmou visita de militares a Robson Caveirinha).

Tortura

AP
O "campo delta" da prisão de Guantánamo, em Cuba, onde há interrogatórios com uso de técnicas de tortura. No banner: 'Honra destinada a defender a liberdade'
Com carta branca e a responsabilidade de resolver o problema, por vezes a área responsável pela coleta de informações usa expedientes ilegais e até criminosos para atingir seus objetivos. Nesse contexto, há inúmeros relatos de tortura por forças oficiais em busca de informações – no exterior e no Brasil. A mais frequente justificativa, quando admitida, é a de que a prática pode salvar pessoas inocentes. O governo George W. Bush defendeu o uso de métodos de tortura, como afogamento, na Guerra ao Terror.

A CIA mantém prisões secretas em países aliados, onde há notícias de tortura de suspeitos de terrorismo. Na prisão de Guantánamo, também aconteceram interrogatórios do gênero. Após a morte de Bin Laden, o governo americano – cujo presidente, Barack Obama, anunciou pretender fechar a unidade – informou que informações relevantes para a operação que levou à morte do terrorista foram obtidas com uso de tortura. Em meio à comoção e ao caso específico da morte de um dos homens mais odiados do mundo, trata-se de uma vitória propagandística dos defensores da tortura.

Importância da Inteligência no mundo atual

Apesar de suas contradições e problemas, é impossível negar a importância, para um país, de um setor de inteligência eficiente. É por meio dele que se podem evitar ameaças à segurança nacional, como o terrorismo, por exemplo.

Os atentados do 11 de Setembro são vistos nos Estados Unidos como resultado de uma falha do aparato de inteligência do país, que vinha sendo esvaziado na administração Bill Clinton, após o fim da Guerra Fria, sob essa alegação. Após o episódio, que marca o início da “Guerra ao Terror”, o sistema de Inteligência ganhou força e foi reformulado, passando a ter o terrorismo como prioridade da área, antes mobilizada para colher informações estratégicas que dessem vantagem aos EUA na Guerra Fria.

No Brasil, a Abin ainda patina na obtenção de meios e recursos e convive com a desconfiança do poder civil, tendo em vista os abusos cometidos pela área durante a ditadura (1964-1985).

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