César Muñoz Acebes. Washington, 9 jun (EFE).- O Governo dos Estados Unidos transferiu hoje pela primeira vez a território americano um detento da base de Guantánamo, em Cuba, o tanzaniano Ahmed Khalfan Ghailani, o qual será julgado em um tribunal civil de Nova York.

Com esta medida, o presidente Barack Obama desafiou o Congresso, que se opõe à transferência de prisioneiros de Guantánamo aos EUA, inclusive se permanecerem atrás das grades no país.

A reação dos republicanos não tardou. O partido considera o tema de Guantánamo um dos pontos fracos de Obama. "Este é o primeiro passo no plano dos democratas de introduzir terroristas nos Estados Unidos", disse John Boehner, o líder do partido na Câmara de Representantes.

As prisões americanas já abrigam muitos terroristas, incluindo Zacarias Moussaoui, condenado por participar dos atentados de 11 de Setembro, e Ramzi Yousef, idealizador do ataque de 1993 contra as torres gêmeas.

Ao anunciar a transferência de Ghailani, o procurador-geral dos EUA, Eric Holder, destacou que o Departamento de Justiça tem "um longo histórico de sucesso" na detenção e processamento de terroristas no sistema penal civil.

Ghailani, suposto ex-guarda-costas de Osama bin Laden, é um dos detidos considerados mais valiosos pelo Pentágono e é acusado de participar dos atentados contra as embaixadas americanas na Tanzânia e no Quênia em 1998, nos quais 224 pessoas morreram.

Ele será o primeiro detento de Guantánamo a ser julgado em um tribunal comum, em vez de nas cortes especiais que o ex-presidente George W. Bush criou na base militar americana na baía cubana, cujas regras foram feitas para favorecer a Promotoria.

Para recorrer aos tribunais civis, o Governo de Obama enfrenta o problema de que os detentos de Guantánamo nunca foram informados de seus direitos e alguns deles foram submetidos a técnicas de pressão, que, em certos casos, chegaram à tortura.

No julgamento do tanzaniano, que está recluso desde hoje em uma prisão de Manhattan, a Promotoria deve usar provas que não estejam marcadas pela coação, mas a defesa poderá apresentar evidência do tratamento ao qual ele foi submetido pela CIA (agência central de inteligência) e pelo Pentágono, o qual é desconhecido.

Ghailani foi capturado em julho de 2004 no Paquistão e levado a uma prisão secreta da CIA até 2006, quando foi transferido a Guantánamo junto com os outros 13 prisioneiros mais valiosos dos Estados Unidos.

O Departamento de Justiça anunciou em maio que levaria o detento a Nova York, e Obama afirmou então que, "após uma década, é hora de finalmente se fazer justiça" pelos atentados de 1998.

A transferência foi decidida por um comitê de revisão criado por Obama após chegar à Casa Branca para revisar um a um os casos dos cerca de 240 detidos que permanecem em Guantánamo e decidir aonde levá-los para fechar a prisão em janeiro de 2010, como o presidente prometeu.

O trabalho, difícil por si só, ficou mais complicado com uma campanha lançada pelos republicanos através da qual alertam os americanos para que o Governo vai trazer "terroristas" a sua vizinhança.

Ghailani tinha sido acusado nos tribunais especiais de Guantánamo, os quais Obama quer manter após dar mais direitos aos detidos, mas, em seu caso, o Governo considerou que tem provas admissíveis suficientes em um tribunal civil para ser julgado em Nova York.

O tanzaniano foi acusado formalmente in absentia nessa cidade após os atentados na África e quatro de seus supostos cúmplices foram condenados e cumprem prisão perpétua na penitenciária de segurança máxima de Florence, Colorado, da qual nenhum preso conseguiu escapar até hoje.

Segundo a Promotoria, Ghailani ajudou os terroristas a fabricar uma das bombas usadas nos ataques de 1998 e posteriormente trabalhou como falsificador de documentos para a Al Qaeda e treinador dos recrutas do grupo. EFE cma/db

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.