Presidente russo alerta que sistema de governo resultante do referendo pode levar à dissolução do Quirguistão

O eleitorado do Quirguistão aprovou em referendo a criação da primeira democracia parlamentar da Ásia Central, conforme resultados oficiais divulgados nesta segunda-feira. A Rússia disse que o resultado pode propiciar a tomada do poder por extremistas nass turbulenta ex-repúblicas soviéticas.

O presidente russo, Dmitri Medvedev, alertou que a votação poderia intensificar o extremismo no instável país da Ásia Central. "Tenho problemas em imaginar que uma república parlamentar possa funcionar no Quirguistão, e não vá provocar uma série de problemas e encorajar a ascenção ao poder de forças extremistas", disse Medvedev à margem da cúpula do G20, em Toronto, Canadá.

"O Quirguistão enfrenta muitos problemas, sobretudo a ameaça de ruptura. Para evitá-la, faz-se necessária uma autoridade forte e bem organizada", afirmou.

O referendo de domingo foi convocado depois da rebelião popular que derrubou o presidente Kurmanbek Bakiyevk, em abril. Os resultados oficiais indicam que, depois de apuradas 99,6% das 2.319 seções eleitorais, 90,6% dos eleitores aprovaram a nova Constituição, que levará a uma eleição parlamentar em outubro. O comparecimento foi de 69%.

O presidente da comissão eleitoral, Akylbek Sariyev, disse que o resultado final será divulgado em dois ou três dias, quando as cédulas forem todas recolhidas. Os resultados preliminares se baseiam em totalizações transmitidas eletronicamente de centros regionais para Bíshkek, a capital.

Antes da divulgação dos resultados, a presidente interina Roza Otunbayeva disse que o Quiriguistão está no caminho de criar "uma verdadeira democracia popular".

A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) disse que o referendo foi transparente e que o comparecimento elevado às urnas sinaliza a resiliência dos cidadãos quirguizes. Monitores da OSCE apontaram algumas falhas que precisam ser corrigidas nas eleições parlamentares de outubro - que, pela nova Constituição, devem se repetir a cada cinco anos.

Os EUA e a Rússia dizem apoiar a criação de um governo forte para impedir que a instabilidade se espalhe pela Ásia Central, uma região fronteiriça com o Afeganistão, que faz parte de importantes rotas do narcotráfico, e que tem sido governada por presidentes autoritários em todos os seus países.

"Esperamos que este seja um passo efetivo na direção de um governo estável e democrático. Saudamos o processo calmo e ordeiro, mas aguardamos os resultados finais das urnas", disse um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA no domingo.

O presidente russo, Dmitri Medvedev, alertou que o sistema de governo resultante do referendo pode eventualmente levar à dissolução do Quirguistão.

Nova Carta

Pela nova Carta, Otunbayeva - a primeira mulher a comandar um país na Ásia Central - seria presidente interina até 2011. As eleições parlamentares seriam realizadas a cada cinco anos e o mandato presidencial, limitado a um período de seis anos.

Ex-embaixadora nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, Otunbayeva tomou o poder após uma revolta que derrubou em abril o presidente Kurmanbek Bakiyev. Embora ela seja do sul do país, vem lutando para controlar a região, um reduto da família de Bakiyev.

Bakiyev está exilado na Bielo-Rússia, de onde afirmou não reconhecer o referendo nem o governo de Otunbayeva, dizendo que o comportamento dela foi "frívolo e irresponsável."

Os confrontos sangrentos aprofundaram as divisões entre as etnias quirguizes e uzbeques, que têm praticamente a mesma proporção na população no sul do país. Muitos uzbeques dizem ter sido o alvo da violência e relutam em apoiar o que veem como uma iniciativa quirguiz.

*Com Reuters e AFP

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