Governo não vai cortar gastos para reduzir inflação, diz Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira, em Lisboa, que o governo não vai cortar mais gastos para diminuir a inflação. Segundo Lula, o governo não tem margem de manobra para mais cortes.

Redação com agências |

"Não temos mais o que cortar de gastos. Fizemos um reajuste que deveria ser feito, fizemos um fundo soberano que é uma mistura de fundo soberano e superávit primário. Acho que as medidas estão tomadas", disse Lula numa entrevista coletiva com a imprensa brasileira em Lisboa, onde participa da 7ª Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Também na sexta-feira, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou que o governo vai fazer contenção na liberação de recursos do orçamento para combater a inflação. O corte seria em torno de R$ 3 bilhões, tanto em despesas obrigatórias como nas de livre aplicação. Segundo o ministro, a medida seria uma determinação do presidente.

Bernardo participou do VIII Fórum dos Governadores do Nordeste, em Teresina, Piauí, onde afirmou que o Governo está sendo forçado a adotar "medidas antipáticas", como a elevação dos juros para conter a inflação. "A crise não é nacional, é uma crise mundial, que se deu por conta da desvalorização do dólar", ponderou Bernardo.

Ainda sobre a inflação, o presidente Lula comentou que não há uma previsão de quando a inflação vai baixar, porque a origem do processo inflacionário não está no Brasil. "Eu não sei quando a inflação vai ficar abaixo do teto. Só sei que vamos tomar todas as medidas que o governo tiver que tomar, todas as medidas que o Banco Central tiver que tomar, porque não nos interessa a volta da inflação", afirmou.

"Temos uma inflação com forte conteúdo internacional e que atingiu praticamente todos os países do mundo. Graças a Deus o Brasil é um dos países menos atingido pela inflação e, dos países emergentes, é o que tem a inflação mais controlada", disse o presidente. "A única coisa que eu posso afirmar para vocês é que a inflação não voltará".

Juros

Sobre a elevação da taxa de juros em 0,75 ponto percentual, o presidente considera que uma das conseqüências poderá ser uma diminuição do crescimento econômico. No entanto, Lula acredita que os principais investimentos para o país não serão afetados.

"O objetivo do Banco Central é que haja uma diminuição da demanda. Mas é importante pensarem que os investimentos que estão acontecendo não estão ligados à taxa Selic", afirmou. "Quando decidimos que a Petrobras vai fazer duas refinarias para 900 mil barris a um custo de US$ 30 bilhões, não vai ser à taxa Selic. Na política agrícola, a juros de 6,25%, não está prevista a taxa Selic."

Doha

Na avaliação do presidente, as negociações da rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio vão dar certo, apesar das dificuldades. "Eu acabei de falar com o ministro Celso Amorim e, como vocês podem perceber pela minha fisionomia, não estou preocupado. Eu até o último milésimo de segundo, vou acreditar que vai dar certo."

Ao tentar explicar o que acontece em Doha, Lula afirmou que os americanos deverão baixar o limite dos subsídios para US$ 12 a US$ 13 bilhões anuais, os europeus terão de flexibilizar a entrada de produtos agrícolas nos seus mercados e os emergentes abrir para os produtos industriais.

Ele foi taxativo em relação às críticas do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes: "A fala do Stepahnes não tem nenhuma influência na negociação da rodada de Doha."

Em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", Stephanes afirmou que a negociação para liberalizar o comércio global "não servirá para nada" e que a abertura dos mercados acabará acontecendo "por razões de mercado".

Inviolabilidade para os advogados

Questionado sobre se pretende vetar o projeto que prevê a inviolabilidade dos escritórios de advogados, não se comprometeu, afirmando que não conhecia o projeto, mas deu indicações do que vai ser a sua decisão: "A lei vale para todos. Se vale para o presidente da República e vale para um jornalista, ela tem que valer para a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) também."

Prêmio

Nesta sexta-feira, após terminar a reunião de chefes de Estado e de governo da CPLP - que teve como tema a língua portuguesa e sua expansão no mundo -, Lula entregou, junto com o presidente de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, o Prêmio Camões ao escritor português Antônio Lobo Antunes.

Trata-se do mais importante prêmio literário de língua portuguesa, que é acompanhado de um cheque de 100 mil euros.

Com informações da BBC Brasil e da Agência Nordeste

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