Governo haitiano tem mais comida do que consegue distribuir

Javier Otazu. Porto Príncipe, 18 jan (EFE).- O Governo haitiano recebeu mais alimentos do que pode armazenar e distribuir, disse à Agência Efe o coordenador nacional de ajuda alimentar nomeado após o terremoto de terça-feira passada, Michel Chancy.

EFE |

"Em princípio, temos comida suficiente, o problema é a recepção e o armazenamento", disse Chancy, secretário de Estado de Agricultura.

O primeiro-ministro haitiano, Jean Max Bellerive, explicou à Efe que seu Governo recolheu e enterrou até o momento 72 mil mortos, aos quais seria preciso somar os "muitíssimos" retirados por suas próprias famílias ou pela Missão da ONU para a Estabilização no Haiti (Minustah).

"Quando disse no primeiro dia (após o terremoto) que haveria mais de 100 mil mortos, me disseram que estava louco. Hoje, constato que estava muito abaixo da realidade", assegurou, sem se atrever a arriscar um número total de mortos.

Quanto aos desabrigados, Bellerive os dividiu em dois grupos: os que tiveram suas casas destruídas, que são 300 mil famílias (aproximadamente 1,5 milhão de pessoas) e um número similar de famílias cujas casas têm fissuras e fendas, e que em muitos casos terão que ser derrubadas.

O total de desabrigados chega a um terço da população do Haiti, o país que antes do terremoto já era o mais pobre da América.

"A realidade do desastre é algo inimaginável, é como um bombardeio de uma semana inteira sobre a população civil. Até os cachorros deixaram de latir durante três dias", disse Bellerive.

Segundo o primeiro-ministro, as atuais prioridades de seu Governo são dar alimento, água e proteção aos desabrigados, especialmente antes da chegada das chuvas.

No entanto, em reunião com o gabinete de crise criado com o Executivo haitiano, as principais agências humanitárias da ONU e alguns países doadores, ficou claro que a recepção e a organização da ajuda é algo que ultrapassa as capacidades atuais.

Michel Chancy citou como principais problemas a falta de logística para a recepção e o armazenamento e a necessidade de criar cordões de segurança em cada comboio humanitário.

O coordenador nacional de ajuda alimentar criticou o fato de dois aviões terem chegado ontem ao aeroporto de Porto Príncipe com sete toneladas de ajuda sem autorização de aterrissagem. Por isso, pediu aos eventuais doadores para que respeitem as medidas de segurança.

Chancy alertou que "primeiro, é preciso garantir a ordem e depois distribuir, (mas) a Polícia está ultrapassada" e não pode evitar incidentes como o de ontem, quando dois agentes da Defesa Civil dominicana que participavam de uma operação de entrega de alimentos foram baleados.

Não é de se estranhar, pois o primeiro-ministro disse que toda a região de Porto Príncipe conta com uma força de dois mil policiais no papel, mas apenas 60% estão disponíveis, e os agentes estão esgotados depois de turnos de até 48 horas sem descansar.

Por isso, o Governo haitiano pediu a ajuda dos Estados Unidos e do Canadá para que enviem tropas que ajudem a manter a ordem.

Até agora, os EUA transferiram dois mil membros da 82ª divisão de para-quedistas ao Haiti, disseram à Efe fontes desta tropa, e outros devem chegar nos próximos dias.

Apesar de todos os problemas de insegurança, foram distribuídas ontem 73 mil porções de alimentos entre os desabrigados pelo terremoto, um quinto delas procedente do programa dominicano de ajuda aos afetados, e o Executivo haitiano.

O primeiro-ministro do Haiti tentou explicar a demora na chegada da ajuda à população.

"O Governo foi duramente afetado, nenhuma estrutura de resposta ficou de pé, nem o palácio presidencial, nem escritório do primeiro-ministro, nem ministérios. Tivemos que buscar cada um de casa em casa", disse Bellerive.

As reuniões do gabinete de crise formado entre os principais ministérios e as agências da ONU são realizadas em um escritório do Poder Judiciário próximo ao aeroporto, onde os presentes se sentam ao ar livre, em cadeiras de plástico ou tábuas, num símbolo da precariedade do país.

O terremoto de 7 graus na escala Richter aconteceu às 19h53 (Brasília) da terça-feira passada e teve epicentro a 15 quilômetros de Porto Príncipe, a capital haitiana.

O Exército brasileiro informou que pelo menos 16 militares do país que faziam parte da Minustah morreram em consequência do terremoto.

A médica Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, e Luiz Carlos da Costa, o segundo civil mais importante na hierarquia da ONU no Haiti, também morreram no tremor. EFE fjo/bba

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