Governo egípcio propõe diálogo após Exército descartar repressão

Pela 1ª vez, Mubarak oferece discutir com manifestantes reformas legislativas e constitucionais; Exército não recorrerá à força

iG São Paulo |

As forças políticas reunidas contra o presidente egípcio, Hosni Mubarak, pareceram se fortalecer nesta segunda-feira quando o Exército do país disse pela primeira vez que não abrirá fogo contra os manifestantes que protestam há sete dias pela queda do regime . Após a declaração do Exército, que reconheceu "a legitimidade das demandas da população" e prometeu garantir "liberdade de expressão", o governo propôs pela primeira vez dialogar com os manifestantes.

O vice-presidente do Egito, Omar Suleiman, disse que Mubarak lhe pediu que inicie o diálogo com todos os partidos políticos, o qual incluirá temas como reforma legislativa e constitucional - exigências básicas feitas por manifestantes anti-Mubarak. As emendas constitucionais incluem reduzir restrições a candidaturas para a próxima eleição presidencial.

"O presidente me pediu hoje (segunda-feira) para manter imediatamente contatos com as forças políticas para começar um diálogo sobre todas as questões levantadas, e que também envolvam reformas constitucionais e legislativas, de um modo que resultará em claras emendas e num cronograma específico para sua implementação", disse Suleiman em um pronunciamento na TV.

A reforma constitucional é uma das exigências fundamentais dos manifestantes que desde a semana passada protestam no Cairo e outras cidades para pressionar pela renúncia de Mubarak, que está há 30 anos no poder.

Também em pronunciamento na TV, um porta-voz do comando militar, Ismail Etman, disse que o Exército não "recorreu ou recorrerá ao uso da força" contra os manifestantes, mas alertou contra qualquer ato que desestabilize a segurança do país", os conclamando a não cometer atos que danifiquem a propriedade.

A declaração foi o sinal mais forte dado até agora pelo Exército de que permitirá que os protestos, que nesta segunda-feira completaram sete dias, continuem crescendo enquanto forem pacíficos. O comunicado não especifica quais demandas os militares veem como legítimas - mas a principal reivindicação dos manifestantes é a queda do presidente Mubarak.

Os anúncios do Exército e do governo de Mubarak foram feitos após a convocação pela oposição de uma grande marcha na terça-feira, quando se completa uma semana desde o início da mobilização popular.

Uma coalizão de grupos oposicionistas anunciou que planeja um protesto ainda maior para a terça-feira, afirmando que espera reunir 1 milhão no Cairo e Alexandria para marcar uma semana das manifestações. Segundo representantes da oposição, os protestos, que deixaram mais de cem mortos, continuarão até que haja uma ampla reforma política e econômica no Egito.

Anúncio do novo governo

No sétimo dia de protestos contra o regime, em que dezenas de milhares desafiaram o toque de recolher na praça Tahir, na capital Cairo, Mubarak deu posse ao novo governo, substituindo um gabinete que havia sido dissolvido como concessão aos protestos antigoverno. O anúncio foi feito após os sindicatos egípcios convocarem uma greve geral no Cairo, Alexandria, Suez e Port Said.

A Irmandade Muçulmana, o grupo de oposição mais influente do Egito, rejeitou o novo governo e pediu que prossigam as manifestações para a queda do regime. "A Irmandade Muçulmana anuncia sua total recusa à composição do novo governo, que não respeita a vontade do povo", diz o grupo em um comunicado.

null Na modificação mais significativa do gabinete, o ministro do Interior - encarregado das forças de segurança internas - foi substituído. Um general de polícia reformado, Mahmoud Wagdi, foi nomeado no lugar de Habib el-Adly, que é amplamente rejeitado pelos manifestantes pela brutalidade mostrada pelas forças de segurança.

Ainda assim, é improvável que o novo gabinete satisfaça dezenas de milhares de manifestantes que saíram às ruas em todo o Egito para exigir a queda de Mubarak e de todo o seu regime.

Quando Mubarak anunciou na sexta-feira a dissolução do governo anterior e nomeou seu chefe de inteligência, Omar Suleiman, como vice-presidente, os manifestantes rejeitaram a medida a qualificando como uma tentativa de Mubarak, que governa o Egito de forma autoritária há 30 anos, para manter-se no poder.

A nova formação ministerial anunciada na televisão estatal incluiu autoridades leais ao regime de Mubarak, mas não mantém vários empresários proeminentes que tiveram postos econômicos e idealizaram as políticas de liberalização econômica das últimas décadas.

Muitos egípcios se ressentem da influência dos milionários magnatas-políticos, que eram aliados próximos do filho do presidente, Gamal Mubarak, muito tempo considerado seu herdeiro político.

No novo gabinete, Mubarak manteve seu ministro da Defesa de longa data, Field Marshal Hussein Tantawi, e o chanceler Ahmed Aboul Gheit. O ministro há mais tempo no gabinete, o titular de Cultura Farouq Hosni, foi substituído por Gaber Asfour, uma figura literária amplamente respeitada.

O mais famoso arqueológo egípcio, Zahi Hawass, foi nomeado para o Ministério de Antiguidades, um novo posto.

*Com AP, BBC, New York Times, Reuters, EFE e AFP

    Leia tudo sobre: egitoeuahosni mubarakmanifestaçõeselbaradei

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG