Assunção, 19 mai (EFE).- Produtores agropecuários e autoridades paraguaias analisaram hoje, sem a presença dos camponeses, uma solução para a onda de invasões de terras no departamento central de San Pedro, do qual o presidente eleito Fernando Lugo foi bispo.

O ministro de Agricultura e Pecuária do país, Alfredo Molina, liderou a primeira reunião com proprietários de fazendas agrícolas e criadoras de gado convocada para discutir formas de frear novas ocupações por grupos de sem-terra.

"Enquanto as reivindicações forem legais e legítimas, sempre daremos respostas", disse Molina durante o encontro, realizado na sede do Ministério da Agricultura, em Assunção.

O ministro também declarou que "muitas vezes as reivindicações" são inviabilizadas pelos "processos administrativos", razão pela qual é preciso "conversar" e "dialogar".

No entanto, ele lamentou a ausência na reunião dos membros da Mesa Coordenadora Nacional de Organizações Camponesas (MCNOC), cujos líderes confirmaram hoje que realizaram 17 ocupações na última semana, a maioria em San Pedro, mas também em Itapúa, Canindeyú, Caazapá e Concepción.

Os agricultores desse grupo e de outros que também se recusaram a participar da reunião reivindicam há anos a distribuição de aproximadamente 50.000 hectares entre famílias de sem-terras.

"O que podemos esperar de nossas autoridades, que durante todo este tempo não tiveram interesse em encaminhar as reivindicações sociais?", questionou Luis Aguayo, dirigente da MCNOC, organização que integra a Aliança Patriótica para a Mudança (APC), a plataforma liderada por Lugo.

Por sua vez, Claudia Ruser, líder da Associação de Produtores de Soja, Oleaginosas e Cereais do Paraguai (APS), declarou que o Governo do atual presidente, Nicanor Duarte, "também não fez muito" pela sua classe.

Além disso, destacou a importância de um plano de ação ser desenvolvido e implantado depois da posse de Lugo, marcada para 15 de maio.

"Temos que nos sentar à mesa para que, quando o presidente Lugo chegar, tenhamos a proposta negociada de quais são as melhoras que queremos introduzir", frisou Ruser, cuja associação concentra 2,6 milhões de hectares de plantação de soja em várias das regiões afetadas pelas invasões.

As ocupações dos últimos dias foram registradas principalmente em San Pedro, onde os lavradores afirmam que existem "terras improdutivas", a maior parte delas em poder de colonos brasileiros que se dedicam ao cultivo mecanizado de soja e à pecuária.

Aguayo disse que as ocupações continuarão e que os sem-terra, que também acusam os colonos de desmatamento, preferem dialogar com o próximo Governo.

Por sua vez, o presidente eleito, que ontem visitou San Pedro, destacou que as reivindicações do movimento são legítimas, embora tenha condenado a atitude dos camponeses que atearam fogo em uma bandeira do Brasil no Dia da Independência do país, em 15 de maio, durante um ato na colônia Curupayty, 350 quilômetros ao norte de Assunção.

Lugo se referiu ao fato como "um gesto de descortesia", disse que o Brasil "é um povo solidário com o Paraguai" e afirmou que "é preciso distinguir o que é o povo e o símbolo que representa".

No entanto, o ex-bispo reconheceu que "um setor das multinacionais e empresários brasileiros, em alguns casos, não respeitam a soberania nem as leis", e apostam em "um desenvolvimento agrário excessivo, em detrimento da população paraguaia e também do meio ambiente". EFE rg/sc

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