Governo e oposição prestes a fixar as bases para um acordo nacional na Bolívia

O governo boliviano e o representante dos cinco prefeitos (governadores) da oposição estão em vias de definir as bases para um acordo nacional que permita solucionar a delicada crise política em que o país se encontra mergulhado.

AFP |

O vice-presidente Alvaro García e o governador rebelde de Tarija, Mario Cossío, discutiram até a madrugada desta terça-feira um documento de base ou agenda de negociações para iniciar um diálogo nacional, depois de três semanas de protestos em cinco das nove regiões do país, que deixaram um saldo de 18 mortos.

Cossío, que negocia com o governo como representante de seus colegas de Santa Cruz, Beni, Pando e Chuquisaca - a mais forte oposição ao presidente Evo Morales- afirmou queas partes estão 'bem perto de um acordo', depois de oito horas consecutivas de diálogo, pela terceira vez em menos de cinco dias.

Ainda falta discutir como serão canalizadas as resoluções da cúpula da Unasul, reunida na segunda-feira, em Santiago do Chile, e que deu um declarado apoio ao presidente boliviano e pediu um diálogo a ser acompanhado por uma comissão do grupo regional.

O vice-ministro da Descentralização, Fabián Yacsik, disse que está trabalhando com base nos avanços obtidos na sexta-feira e domingo e que acredita que ainda nesta terça o país poderá conhecer as bases de um diálogo sério.

O entendimento deve conter os temas que serão discutidos entre delegados do governo e a oposição, como o pedido dos prefeitos rebeldes de que sejam restituídos os fundos procedentes do imposto sobre os combustíveis que o Executivo destinou ao pagamento dos aposentados.

Também será debatida a vigência das autonomias e o destino da nova Constituição que Morales deseja validar em um referendo em janeiro de 2009, apesar da oposição da direita.

No entanto, a aproximação está repleta de sobressaltos, apesar dos dirigentes cívicos de Santa Cruz terem anunciado a suspensão dos bloqueios de estradas, iniciados há três semanas, e o tráfego ter começado a voltar ao normal.

A verdade é que a tranqüilidade ainda está longe. Camponeses ligados ao governo reforçaram na segunda-feira um corte de estrada 850 km a leste de La Paz, exigindo a renúncia do prefeito Rubén Costas, por promover oposição ao presidente Morales.

Além disso, o governo anunciou que 11 líderes civis de Pando - onde aconteceu o massacre de 16 camponeses leais a Morales, com mais de 100 feridos e desaparecidos - serão detidos nas próximas horas.

O saldo global de mortos é de 18 desde que a violência explodiu há uma semana em Santa Cruz.

Outro ponto de polêmica é a ordem de prisão contra o prefeito de Pando, Leopoldo Fernández, acusado de estimular a violência.

As gestões políticas locais coincidem com as iniciativas diplomáticas, e o importante respaldo da União de Nações Sul-americanas (Unasul) e do Grupo do Rio à democracia boliviana e ao presidente Morales.

Na véspera, a Unasul divulgou um comunicado apoiando o governo do presidente Evo Morales e rejeitando qualquer tentativa de divisão territorial da Bolívia.

A Declaração do Palácio de La Moneda - aprovada por unanimidade pelos nove presidentes que assistiram à reunião - prevê a criação de uma comissão aberta a todos os países da Unasul, coordenada pela presidência chilena, para acompanhar o processso de negociação atualmente em curso em La Paz.

Os presidentes manifestaram "seu mais pleno e decidido apoio ao governo constitucional do presidente Evo Morales, cujo mandato foi ratificado por ampla maioria".

O documento destaca que os respectivos governos rejeitam energicamente e não reconhecerão qualquer situação que tente um golpe civil, a ruptura da ordem institucional ou comprometa a unidade territorial da República da Bolívia".

Os presidentes da região também condenaram a morte de 18 camponeses no departamento de Pando, e acolheram o pedido do governo boliviano para o envio de uma missão da Unasul encarregada de investigar o ataque.

A Unasul rejeitou ainda os ataques às repartições federais e à força pública por parte de grupos que buscam a desestabilização da democracia, e exigiu a pronta devolução das instalações ocupadas.

Evo Morales agradeceu o apoio unânime dado pela Unasul, "especialmente por sua posição firme de defender a democracia e a unidade do povo da Bolívia".

O documento foi assinado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Tabaré Vázquez (Uruguai), Evo Morales (Bolívia), Cristina Kirchner (Argentina), Fernando Lugo (Paraguai), Alvaro Uribe (Colômbia), Rafael Correa (Equador), Hugo Chávez (Venezuela) e a chilena Michelle Bachelet, que exerce a presidência rotativa da Unasul.

pa/lm/cn

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