Governo e oposição avançam para acordo na Bolívia

O governo da Bolívia e um porta-voz da oposição, o prefeito (governador) de Tarija, Mario Cossío, avançaram na elaboração de um documento para amenizar a crise no país, que poderia ser assinado ainda nesta segunda-feira.

BBC Brasil |


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O documento, que estabelece as bases de uma futura negociação para pôr fim à crise política, definiria os mediadores, a metodologia, os interlocutores e os temas a serem abordados na negociação.

Segundo a correspondente da BBC Mundo em La Paz, Mery Vaca, o texto está sendo negociado entre o vice-presidente, Álvaro García Linera, e o prefeito de Tarija, Mario Cossío, que tem representado a oposição nas últimas reuniões de diálogo com o governo.

Ao final de um encontro entre ambos, Cossío disse que está "bastante próximo de fechar" o acordo.

As partes aguardam a volta do presidente Evo Morales, que está no Chile para uma reunião da União Sul-Americana de Nações (Unasul), onde a crise boliviana também está sendo discutida.


Manifestantes da oposição entram em confronto com partidários de Morales / Reuters

Ocupação

O presidente do Comitê Cívico do Departamento (Estado) de Santa Cruz, na Bolívia, Branko Marinkovic, anunciou que será mantida a ocupação dos organismos públicos do governo central na região.

"Mais cedo, anunciamos o fim dos bloqueios de estradas. Bloquear estradas não faz parte do nosso perfil", disse, no domingo. "Mas queremos dizer que as instituições são uma vitória da nossa autonomia e ficarão no Departamento".

A posição de Marinkovic indica que a crise na Bolívia, que se intensificou na última semana, ainda está longe de ser resolvida, apesar da retomada do diálogo, no domingo, entre governo e oposição, em La Paz, e da expectativa para a reunião da Unasul desta segunda-feira, em Santiago, no Chile, que contará com a presença de nove presidentes.

As declarações de Marinkovic foram feitas na escadaria da catedral da cidade, logo após uma missa. Na praça em frente, os manifestantes gritavam: "autonomia, autonomia".

Marinkovic referiu-se ainda às mortes ocorridas, na semana passada, no Departamento de Pando, na fronteira com o Acre. "Queremos dizer ao senhor presidente e a seus ministros de morte que parem de matar". O público gritava: "assassino, assassino".

O Comitê Cívico de Santa Cruz é o principal reduto da oposição a Morales. Os eleitores daqui votaram pela autonomia política e financeira do Departamento em relação ao governo central. A iniciativa é criticada pelo governo Morales como "ilegal". Outros três Departamentos (Tarija, Beni e Pando) - redutos da oposição - realizaram as mesmas iniciativas.

O vice-presidente da Bolívia havia destacado a "necessidade" de que sejam liberados os prédios dos organismos públicos do governo central para tentar se chegar a algum entendimento.

"As instituições públicas devem ser liberadas", disse Álvaro García Linera.

No fim de semana, a Prefeitura de Santa Cruz e o Comitê Cívico informaram que começarão a empossar, nesta segunda-feira, novos diretores para os organismos públicos do governo central na região.

Bloqueios

A queda de braço ocorre quando opositores de Morales, atendendo orientação do Comitê Cívico, liberaram os bloqueios na alfândega no aeroporto de Viru-Viru, de Santa Cruz, e nas estradas do Departamento - o mais próspero da Bolívia.

Mas diferentes movimentos sociais, que apóiam Morales, informaram que não vão abandonar os protestos nas estradas.

Com paus, estilingues e pedras, camponeses diziam na localidade de Yapacaní, a mais de duas horas do centro de Santa Cruz de la Sierra, capital de Santa Cruz: "Não estamos aqui há mais de dez dias para desistir desta luta agora. Os cívicos (opositores) liberaram estradas, mas queremos que abandonem os edifícios que são do governo."

A disputa entre situação e oposição é motivada por duas questões: a nova Constituição do país, aprovada com votos da situação, mas sem a participação da oposição, e os cortes no repasse de verbas do setor petroleiro para as regiões.

O governo Morales afirma que quer "refundar" a Bolívia com a nova Carta Magna que prevê a reforma agrária e a reeleição do presidente, entre outros itens.

Ao mesmo tempo, informa que os recursos petroleiros são destinados ao pagamento de benefício a aposentados. Dona da segunda maior reserva de petróleo da região, a Bolívia é um dos países mais pobres da América Latina.

E sua nova crise será o tema principal da reunião da Unasul, que contará com a presença de nove presidentes da região - além de Morales, confirmaram presença, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, Cristina Kirchner, da Argentina, Hugo Chávez, da Venezuela, Álvaro Uribe, da Colômbia, além da anfitriã, Michelle Bachelet, entre outros.

A oposição pediu para participar do encontro, como contou Cossío, mas a presença não foi confirmada.


Mapa político da Bolívia

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