Governo e oposição adiam assinatura de acordo na Bolívia

COCHABAMBA, Bolívia (Reuters) - O governo e a oposição da Bolívia adiaram por pelo menos até a próxima semana a assinatura de um acordo sobre reformas que ponham fim ao conflito que ameaça dividir o país. Com otimismo cauteloso, ambas as partes disseram após o encontro de duas horas nesta quinta-feira, na cidade de Cochabamba, que voltarão a reunir-se na segunda-feira, dando mais tempo a discussões técnicas sobre uma nova Constituição socialista e as autonomias regionais pedidas por várias regiões.

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O presidente Evo Morales, que havia manifestado desejo de assinar nesta quinta um acordo global com a oposição, ficou em silêncio depois da reunião e só confirmou através do porta-voz que se reunirá no sábado com os chamados "movimentos sociais" para avaliar o diálogo.

"Hoje não foi assinado nenhum documento. O presidente tinha pedido que assinássemos, mas nós governadores só vamos assinar o documento que dê por encerrado o processo do diálogo", disse o governador de Tarija, Mario Cossío, porta-voz das três regiões rebeldes.

Sindicatos e outras organizações que apóiam Morales haviam ameaçado iniciar uma onda de manifestações se os três governadores de direita continuassem se opondo à adoção de uma nova Constituição de viés socialista.

Os escassos avanços obtidos nos últimos três dias por comissões técnicas pareceram ofuscados pouco antes de ser retomada a negociação, quando o governo informou que os três governadores envolvidos no processo pretendiam alterar grande parte da nova Constituição, e não só o capítulo que se refere à autonomia regional pleiteada por eles, como já estava definido.

"Não se pode ganhar numa mesa de diálogo o que se perdeu perante o povo, mediante o voto", disse o vice-presidente Álvaro García em entrevista coletiva antes do encontro num hotel de Cochabamba.

García acusou os governadores de Santa Cruz, Tarija e Beni de quererem ir além de suas atribuições regionais.

"Isso parece uma chacota política, não tem sentido, não corresponde à realidade . Para ter força política na mesa de diálogo é preciso ter força no voto, na Assembléia Constituinte ou na força nacional", disse García.

Dos 250 constituintes, 168 aprovaram em dezembro a nova Carta, "e não é possível que com 10 ou 15 votos se queira chantagear para impor mudanças", disse o vice de Morales.

Mais de 20 pessoas morreram em incidentes ligados aos protestos políticos das últimas semanas, em que a oposição chegou a interromper o fornecimento de gás da Bolívia para Argentina e Brasil.

O governador oposicionista de Santa Cruz, Rubén Costas, entrou na reunião de quinta-feira mostrando-se pouco otimista. "É muito difícil que o que não se pôde arrumar em nove meses se possa arrumar em uma semana", disse.

Em discurso a camponeses horas antes do novo encontro com governadores, Morales acusou a oposição "neoliberal" de defender latifundiários e estimular a divisão do país.

"Agora os que diziam independência dizem que haja autonomia departamental plena, mas autonomia departamental plena é outra independência", afirmou, num apelo pela unidade nacional.

O presidente, que nas últimas semanas recebeu o apoio de outros governos sul-americanos, disse que espera que os prefeitos aceitem sua proposta de "constitucionalizar" as autonomias.

(Reportagem de Danilo Balderrama)

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