Governo do Líbano cancela medidas contra o Hezbollah

BEIRUTE - O governo do Líbano cancelou na quarta-feira as medidas contrárias ao grupo Hezbollah, que haviam provocado o pior conflito interno no país desde o final da guerra civil (1975-90), deixando 65 pessoas mortas e outras 200 feridas.

Redação com agências internacionais |

O governo de Fouad Siniora, que tem apoio dos Estados Unidos, disse em nota que está cumprindo recomendações do Exército para preservar a paz e facilitar a mediação da Liga Árabe.

'O gabinete decidiu aceitar a sugestão do comandante do Exército, o que inclui o cancelamento das duas decisões', disse a nota lida pelo ministro da Informação, Ghazi Al Aridi.

O texto se refere à ordem para desmantelar a rede de comunicações do Hezbollah e à demissão do chefe de segurança do aeroporto de Beirute, que era ligado ao grupo.

'Saudamos esse passo do governo e vemos que ele forma o prelúdio de um fim para a nossa campanha de desobediência', disse uma fonte da oposição à Reuters.

Essa fonte acrescentou que já na quinta-feira pode começar um diálogo com o governo, e que a campanha de desobediência seria encerrada.

Seguidores do Hezbollah deram tiros para o alto em Beirute para comemorar o recuo do governo.

A crise política entre o Hezbollah, que tem apoio da Síria e do Irã, e o governo pró-ocidental se arrasta há 18 meses. Por causa dela, o Líbano está sem presidente desde novembro.

Pelo menos 81 pessoas morreram nos confrontos iniciados por causa das decisões controversas do governo, em 7 de maio. Em seis dias de combates, o grupo islâmico conseguiu expulsar seus adversários de várias partes de Beirute.

Em Jerusalém, onde celebra os 60 anos de Israel, o presidente dos EUA, George W. Bush, acusou o Irã de usar o Hezbollah para 'desestabilizar a jovem democracia' do Líbano.

Também na quarta-feira, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a intenção de acelerar a assistência ao Exército libanês, e disse que há consultas no Conselho de Segurança da ONU sobre como lidar com a crise.

Sectarismo no Exército

A onda de violência que tomou conta do Líbano nos últimos seis dias também expôs a delicada situação do Exército do país, ameaçado de se fragmentar em linhas sectárias.

O Exército libanês, com medo de que suas fileiras se desintegrassem por lealdades sectárias, se manteve neutro no conflito e se limitou a garantir a segurança de instituições e prédios governamentais.

"Passava o tempo todo lembrando meus subordinados da nossa missão, de que deveríamos continuar unidos", disse à BBC Brasil o tenente Omar, que não quis revelar seu sobrenome.

Tensão

O tenente, que é um muçulmano sunita, relatou os tensos dias que ele e seu comandados viveram quando começaram os combates nas ruas de Beirute, na semana passada.

Omar falou sobre a difícil tarefa de administrar o clima de tensão constante, já que sua unidade é formada por sunitas, xiitas e cristãos.

Segundo Omar, os soldados estavam nitidamente nervosos, alguns imaginando que era o início de uma guerra civil.

Sua unidade estava posicionada na Hamra, palco de uma das mais intensas batalhas entre o Hezbollah e militantes sunitas do líder governista Saad Hariri.

"Quando vimos o número de militantes do Hezbollah, e o equipamento que tinham, eu tive a certeza de que os militantes do al-Mustaqbal (partido de Hariri) estavam perdidos", disse.

Xiitas e sunitas

Em menos de 24 horas, as milícias da oposição derrotaram e humilharam os governistas, tomando toda a Beirute oeste.

O Exército, que tinha ordens para não tomar partido, passou por momentos difíceis quando os militantes se aproximaram dos prédios do governo.

Segundo Omar, um de seus soldados, que é xiita, se aproximou e disse que rezava para que o Hezbollah não resolvesse invadir as áreas governamentais.

"Ele me olhou nos olhos e disse: 'Por favor, tenente, me perdoe, mas eu não poderei abrirei fogo contra eles'", disse Omar.

Ao ser questionado sobre o que faria se houvesse uma guerra civil, Omar não soube dizer. "Como eu poderia ficar contra meus irmãos, sou sunita, não posso fugir disso."

Renúncia

O Líbano já enfrentou a fragmentação de seu Exército em linhas sectárias durante a sangrenta guerra civil entre 1975 e 1990, que deixou mais de 150 mil mortos e destruiu a infra-estrutura do país.

Naquela ocasião, o Exército libanês permaneceu em seus quartéis para não se envolver no conflito.

Mas a recusa de soldados de obedecer seus oficiais por lealdade a seus líderes religiosos culminou com a dissolução do Exército do país.

Nesta quarta-feira, o medo da desintegração do Exército voltou a aparecer com a notícia de que o chefe-assistente da Inteligência do Exército e outros 40 oficiais leais ao governo teriam apresentado sua renúncia ao comandante das Forças Armadas, Michel Suleiman, segundo informações da Agência de Notícias Nacionais.

Suleiman rejeitou as renúncias e enviou uma carta a todo o corpo de oficiais do Exército libanês, um ato inédito, já que é a primeira vez na história da intituição militar que um comandante se dirige diretamente aos oficiais.

Na carta, o general disse a seus comandados que nenhuma força regular pode conter o que o Líbano experimentou - uma guerra civil.

"O que aconteceu nas ruas do Líbano é uma guerra civil real que nenhum exército nacional no mundo pode confrontar. Tais exércitos se desintegraram", dizia a mensagem.

Suleiman salientou a necessidade do Exército não permitir a explosão de uma guerra civil.

(*Com informações da agência Reuters e da BBC)

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