Governo decreta prisão de líder opositor na Bolívia

O governo do presidente da Bolívia, Evo Morales, ordenou a prisão do prefeito (governador) do Departamento (Estado) de Pando, Leopoldo Fernández, onde 16 pessoas morreram em enfrentamentos recentes. A prisão foi decretada com base na acusação de que o líder opositor orquestrou as manifestações anti-Morales que levaram aos confrontos, segundo o governo.

BBC Brasil |

Pouco depois, os outros prefeitos da oposição reagiram, impondo condições para um diálogo com o presidente, marcado para este domingo.

"Nós nos solidarizamos com o prefeito de Pando. E antes de ir ou não à reunião em La Paz, queremos viajar a Cobija (capital de Pando) para lhe dar nosso apoio", disse o prefeito de Santa Cruz, Ruben Costas. "Só haverá diálogo se não ocorrer mais nenhum ferido ou morte".

Costas fez as declarações ao lado dos colegas de Tarija, Mario Cossío, e de Beni, Ernesto Suárez, durante entrevista na prefeitura de Santa Cruz, na capital deste departamento, Santa Cruz de la Sierra.

Mais cedo, o anúncio do encontro com Morales tinha alimentado a esperança de uma trégua e entendimento entre governo e oposição. "Queremos ir à reunião, mas depende do que vai acontecer nas próximas horas", disse Cossío.

Foi ele quem se reuniu na sexta-feira, em La Paz, com o vice-presidente Álvaro García Linera, e chegou com a informação do encontro para o diálogo.

"Mas enquanto o prefeito de Tarija estava em La Paz, o governo decretou estado de sítio em Pando. Fica difícil dialogar desta forma", afirmou o secretário geral da prefeitura de Santa Cruz, Roly Aguilera.

Prisão

O anúncio da ordem de prisão contra Fernández foi feito pelo ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, na noite de sábado, diante das câmeras de televisão do país.

"Prenderemos Fernández", disse. "A prisão será, mais cedo ou mais tarde, por ele ter violado a Constituição e por ter gerado a sangrenta matança de camponeses em Pando", disse. Segundo ele, grupos "paramilitares e mafiosos" atuam sob as ordens do prefeito.

Pando, na fronteira com o Acre, foi o lugar dos enfrentamentos ocorridos na quinta-feira, que deixaram catorze mortos.

Na sexta-feira, na chegada dos soldados do Exército a Cobija, outras duas pessoas foram mortas, subindo para dezesseis o total de vítimas fatais.

Diferentes emissoras de televisão começaram a mostrar anúncio do governo, dizendo: "Senhor prefeito, esse massacre de camponeses não ficará impune".

Fernández, por sua vez, disse, segundo a imprensa local, que não pretende cumprir o estado de sítio. "Não temos por que cumpri-lo".

Entendimento difícil

As declarações do governo e da oposição mostram as dificuldades para que se chegue a um entendimento.

O clima de forte tensão permanece no país. Como antecipou a BBC Brasil, as Forças Armadas mandaram tropas para os Departamentos governados pela oposição, com objetivo, segundo o Ministério da Defesa, de "recuperar" e "proteger" instituições públicas.

"Temos informações de que militares foram enviados para cá. Esse é outro motivo pelo qual tivemos que pensar melhor sobre a reunião com Morales", disse Aguilera. "Se o Exército entrar aqui (na capital) haverá enfrentamentos".

No sábado, grupos indígenas, simpáticos a Morales, ligavam para as emissoras de rádio para dizer que caminhavam para o centro de Santa Cruz de la Sierra, para "liberar" organismos públicos, ocupados por opositores de Morales.

"O Instituto de Reforma Agrária é nossa esperança de ter um pedaço de terra. Vamos tirar os invasores", disse um deles.

Foram registrados enfrentamentos com paus e pedras em localidades a mais de cem quilômetros de Santa Cruz de la Sierra. Uma emissora de televisão mostrou manifestantes armados com espingardas. Foi outra jornada com feridos, mas até o início da madrugada deste domingo não havia informações sobre o número de vítimas.

A nova crise boliviana começou pouco depois do referendo, em agosto, que ratificou tanto Morales quanto a oposição no poder. A oposição rejeita a nova Constituição, aprovada no ano passado, que prevê, entre outros itens, a reforma agrária.

Ao mesmo tempo, a oposição reclama dos cortes no repasse de verbas do setor petroleiro para as regiões. O governo informa que os recursos são usados no pagamento de benefícios aos aposentados.

Ninguém sinaliza que pretende ceder nas suas visões.

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