Governo de Mianmar rejeita ajuda de países contrários ao regime

Bangcoc, 17 mai (EFE).- Duas semanas após a passagem do ciclone Nargis pelo sul de Mianmar, a Junta Militar que governa o país ainda não liberou o acesso dos voluntários estrangeiros às regiões atingidas, apesar de o número de mortos ter dobrado e chegado a 78 mil.

EFE |

O novo saldo de vítimas apresentado pelas autoridades supera em 35 mil o dado oficial anterior mantido até ontem. Mas, ainda assim, está longe dos 130 mil mortes estimadas pela Cruz Vermelha - sem contar as 56 mil pessoas dadas como desaparecidas.

No entanto, o aumento no número de óbitos e o estado de precariedade de 2,5 milhões de habitantes pela falta de alimentos - segundo estimativas da ONU - não foram suficientes para fazer a Junta Militar aceitar a cooperação internacional.

O navio da Marinha francesa "Mistral", carregado com 1.500 toneladas de alimentos e remédios, continua ancorado em águas internacionais à espera de autorização do Governo birmanês para atracar na costa sul do país, a região mais afetada pelo ciclone.

Enquanto as autoridades birmanesas querem que as ajudas sejam entregues primeiro a elas, a França deseja levar as provisões humanitárias diretamente às zonas afetadas, segundo explição do embaixador francês Jean Maurice Ripert, ontem, nas Nações Unidas.

Em relação à resistência birmanesa, o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, chamou a Junta Militar de "desumana" por impedir que as ajudas cheguem aos necessitados.

Para Brown, a incompetência dos generais birmaneses transformou um desastre natural (o ciclone) em uma "catástrofe produzida pelo homem", segundo declarações à "BBC".

A resistência à entrada de voluntários é maior aos que são provenientes de países que criticam o regime de Naypyidaw (a capital administrativa de Mianmar), já que a ajuda vinda de nações que apóiam o Governo, como China e Tailândia, foram aceitas.

Neste sábado, uma equipe de 30 médicos e enfermeiros tailandeses, liderados pelo ministro da Saúde Pública, Chaiya Sasomsab, chegou a Mianmar para dar sua ajuda aos desabrigados pela tempestade de 2 e 3 de maio.

A equipe tailandesa foi a primeira composta por médicos estrangeiros a receber autorização para entrar no país, no qual deve ficar pelas próximas duas semanas.

A entrada da equipe médica é fruto das conversas que o primeiro-ministro tailandês, Samak Sundaravej, teve com as autoridades birmanesas na quarta-feira, quando as partes conversaram sobre a entrada de voluntários estrangeiros em Mianmar.

Entretanto, somente a equipe médica da Tailândia obteve a autorização necessária, enquanto voluntários de outras nacionalidades não tiveram sua entrada permitida.

A expectativa é que a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), organização à qual pertence Mianmar, trate do problema da assistência humanitária aos atingidos pelo ciclone "Nargis" na próxima segunda-feira, em uma reunião especial em Cingapura.

Deste encontro, deverá participar o ministro de Assuntos Exteriores birmanês, Nyan Win.

Além de Mianmar e Cingapura, Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Tailândia e Vietnã fazem parte da Asean.

Quanto à doação de dinheiro, segundo a revista dissidente "The Irrawady", com sede na Tailândia, Mianmar recebeu até agora cerca de US$ 75 milhões de dezenas de países, sobretudo de Austrália (US$ 25 milhões), Estados Unidos (US$ 13 milhões) e Reino Unido (US$ 10 milhões).

Em relação aos alimentos, a falta de condições para se cultivar arroz em Mianmar em um ou dois meses pode gerar uma escassez do produto nos seis ou sete meses seguintes, segundo previsões.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla em inglês), o "Nargis" destruiu cerca de 700 mil hectares de arrozais.

A curto prazo, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, em inglês) disse que há uma necessidade crítica de alimentos, abrigo, remédios e água, e que é crescente o risco de surtos de doenças infecciosas. EFE tai/rb/sc

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