Governo de facto usa luzes e barulho contra Zelaya na embaixada

Por Edgard Garrido e Anahí Rama TEGUCIGALPA (Reuters) - Como ocorreu anos atrás no Panamá com o esconderijo do ditador Manuel Noriega e no Peru, com a tomada da residência do embaixador japonês, o governo de facto de Honduras assedia com barulho e luzes o presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, abrigado na embaixada do Brasil.

Reuters |

"Tenho os olhos irritados, estou enjoado, tenho dor de cabeça", queixou-se Zelaya nesta sexta-feira, pouco depois de denunciar que militares colocaram tubos na representação diplomática e supostamente jogaram um gás tóxico que levou várias pessoas a cuspir sangue.

Uma testemunha da Reuters dentro da embaixada disse que surgiu um forte cheiro parecido com o de inseticida e várias pessoas, que estão há quatro dias dentro da casa, sofreram enjoos e dor de cabeça.

Ao se dirigir à rua por um muro da embaixada, a testemunha viu militares entre as árvores, tendo por perto um pequeno tanque coberto com um plástico de cor verde.

Segundo os representantes brasileiros, Zelaya foi atendido pelo médico de sua comitiva, que também examinou outras pessoas. Para um funcionário brasileiro da embaixada, a negociação parece complicada, mas a situação está mais calma.

"Aqui agora está mais tranquilo, passou o cheiro de gás e o fornecimento de água e luz está correto", disse por telefone à TV Reuters José Wilson, assistente de Francisco Rezende Catunda, único diplomata do Brasil na embaixada em Tegucigalpa.

Durante a invasão dos Estados Unidos ao Panamá, em 1989, Noriega se refugiou na Nunciatura Apostólica da capital. Um dos métodos para forçá-lo a sair foi colocar grandes alto-falantes que tocavam música estridente de rock e sem interrupção por três dias, até conseguir seu objetivo.

Anos depois, em 1997, o então presidente peruano, Alberto Fujimori, fez algo parecido quando o grupo guerrilheiro Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) ocupou a residência do embaixador japonês durante meses, mantendo centenas de reféns.

Na época, Fujimori instalou grandes alto-falantes que tocavam marchas militares diante da residência para pressionar o grupo. Também cortou a luz e a água.

Mais de uma década depois, os militares hondurenhos --que durante décadas desde a Guerra Fria foram treinados pelos Estados Unidos-- estão ensaiando táticas para acabar com a paciência do presidente destituído e que tenta voltar ao poder, segundo declarou o próprio Zelaya e testemunhas da Reuters.

Zelaya retornou clandestinamente ao país depois de três meses de exílio forçado, e pediu refúgio na embaixada do Brasil para evitar uma ordem de prisão contra ele.

A pressão do governo de facto, que assumiu o poder depois do golpe militar contra Zelaya, em 28 de junho, está sendo feita gradualmente e em pequenas doses.

Dias atrás, painéis sonoros emitiram durante a noite um zumbido que provocava enxaqueca e insônia, ao mesmo tempo que refletores foram colocados nas casas vizinhas à embaixada, onde estão com Zelaya cerca de 60 pessoas, entre partidários, jornalistas e diplomatas.

O governo de facto nega essas táticas de pressão e declarou nesta sexta-feira em um comunicado que só realiza operações de limpeza na área e isso explica o forte cheiro. Os golpistas se negam a restituir Zelaya porque dizem que ele violou a Constituição ao querer realizar uma consulta popular.

"É totalmente falso que membros da Polícia Nacional tenham colocado uma equipe especial que dispare um líquido que provoque mal-estar nas pessoas que estão na sede da missão diplomática do Brasil", assinalou em um comunicado.

(Reportagem adicional de Oswaldo Rivas e Eduardo Quirós em Tegucigalpa, de Marco Aquino em Lima e de Alice Pereira da TV Reuters)

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