Governo da Sérvia extradita Goran Hadzic para Haia

Ex-líder servo-croata era último dos fugitivos procurados pelo tribunal da ONU para crimes de guerra na ex-Iugoslávia

iG São Paulo |

AP
Hadzic (usando blusa verde) chega à casa onde vivia antes de fugir em Novi Sad, na Sérvia (22/07)
A Sérvia extraditou nesta sexta-feira ex-líder servo-croata Goran Hadzic para o Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia (TPII), em Haia. Último dos fugitivos procurados pelo tribunal da ONU para crimes de guerra na ex-Iugoslávia, Hadzic teve sua prisão anunciada na quarta-feira .

A ministra da Justiça da Sérvia, Snezana Malovic, afirmou que a assinatura do documento de extradição representa o fim do "capítulo mais difícil" da cooperação do país com o TPII. Segundo Malovi, a prisão de Hadzic demonstrou a dedicação da Sérvia ao "cumprimento das normas internacionais". 

A ministra destacou que agora a Sérvia poderá aplicar mais esforços ao cumprimento de outros compromissos que facilitem sua aproximação à União Europeia, como, por exemplo, a luta contra o crime organizado. A plena cooperação da Sérvia com o TPII, o que inclui a prisão de Hadzic, era uma das condições para a entrada do país no bloco.

Antes de ser extraditado, Hadzic visitou a mãe doente na casa onde morava antes de fugir, em Novi Sad.

De acordo com o procurador de crimes de guerra sérvio, Vladimir Vukcevic, Hadzic foi preso em uma floresta perto da vila de Krusedol depois que os investigadores seguiram a pista de um quadro roubado atribuído ao artista italiano Amedeo Modigliani (1884-1920). "O grande avanço na investigação foi a informação de que ele queria vender um quadro de Modigliani por estar ficando sem dinheiro; ele estava sem nenhum tostão", disse Vukcevik. "Ele provavelmente conseguiu o quadro durante o conflito na Croácia."

De acordo com essas fontes, sua aparência mudou dramaticamente e, apesar de armado, não resistiu à prisão. Atualmente com 52 anos, Hadzic liderou as forças separatistas sérvias durante a Guerra da Croácia (1991-1995).

No início deste ano, tabloides sérvios relataram que a pintura, que alegadamente seria intitulada como "Retrato de um Homem", havia sido descoberta na casa de um amigo de Hadzic. O Registro de Arte Perdida em Londres, que rastreia quadros perdidos ou roubados, lista quatro retratos de homens feitos por Modigliani como roubados, disse o diretor-executivo Christopher Marinello.

Segundo ele, os quadros do pintor italiano foram vendidos recentemente por valores entre US$ 4 milhões e US$ 10 milhões, mas o vendedor de um quadro roubado pode conseguir apenas de 5% a 10% dessa cifra se negociar no mercado negro. Também há uma real possibilidade de que o quadro, que aparentemente foi exposto em Belgrado em meados dos anos 2000, seja falso, disse um agente policial que investiga trabalhos de arte roubados.

Acusações

O TPII tornou pública a acusação contra Hadzic em 2004, acusando-o do assassinato de centenas de croatas e outros cidadãos não-sérvios da Croácia. Sua prisão ocorre menos de dois meses após a Sérvia prender o antigo comandante militar servo-bósnio Ratko Mladic. Das 161 pessoas acusadas pelo TPII desde sua criação em 1993, Hadzic era o único que seguia em liberdade após a captura de Mladic.

Hadzic havia desaparecido há sete anos, após seu indiciamento pelo tribunal da ONU ter sido comunicado ao governo sérvio. Hadzic foi indiciado por 14 acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo perseguição, extermínio, deportação e destruição por seu envolvimento em atrocidades cometidas pelas tropas sérvias na Croácia. Entre as principais acusações contra ele está a deportação de 20 mil pessoas após a ocupação da cidade de Vukovar.

Nascido em 1958, ele era dono de armazém antes da desintegração da antiga Iugoslávia e, desde sua juventude, tinha uma forte atuação política como membro da Liga dos Comunistas. No início da década de 1990, quando começou a desintegração da federação iugoslava, militou nas fileiras dos partidos nacionalistas sérvios que se formaram na época e logo ganhou destaque como um dos líderes sérvios na Croácia.

Durante 1992 e 1993, Hadzic foi presidente da autoproclamada República Sérvia de Krajina, que ocupou cerca de um terço do território da Croácia durante a guerra no país, e sob sua liderança foram cometidos crimes contra a humanidade.

Depois da guerra, o ex-líder viveu na Sérvia até ser divulgado que era procurado pela Justiça internacional. Segundo a Procuradoria do TPII, Hadzic passou à clandestinidade em 2004, "apenas horas depois que as autoridades de Belgrado receberam uma solicitação para sua detenção".

Nos últimos tempos, as autoridades sérvias intensificaram as buscas, o que levou sua família a expressar sua frustração e ansiedade. Uma irmã de Hadzic declarou recentemente ter perdido seu emprego por ser parente do suposto criminoso de guerra, enquanto um de seus filhos revelou não conseguir dormir diante do temor de que as unidades especiais da polícia invadissem sua casa.

Com BBC, AP, Reuters e EFE

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