Governo cubano faz silêncio e dissidentes repudiam fim das sanções da UE

Havana, 20 jun (EFE).- O Governo de Cuba mantém silêncio hoje sobre a suspensão definitiva das sanções diplomáticas da União Européia (UE) contra a ilha, enquanto porta-vozes da dissidência repudiam a decisão e criticam a Espanha por apoiá-la.

EFE |

Os jornais oficiais "Granma" e "Juventud Rebelde" publicaram hoje a resolução adotada na quinta-feira pelos ministros da UE sobre o que chamam de "medidas injustas", impostas em 2003 após a condenação de 75 dissidentes a penas de até 28 anos de prisão.

Ambos publicam a notícia com o mesmo texto e em páginas interiores, enquanto a televisão estatal informou de forma breve sobre a resolução e mostrou a reação contrária dos Estados Unidos.

O texto dos jornais diz que as medidas foram aprovadas "sob o pretexto da detenção, por parte de Cuba, de 75 contra-revolucionários, pagos e avalizados pelo Governo dos Estados Unidos para subverter a ordem política, econômica e social da ilha".

A imprensa cubana lembra ainda que as sanções incluem limitar as visitas governamentais de países da UE à ilha e reduzir a participação européia em eventos culturais em Cuba.

Porta-vozes da dissidência reagiram com fortes críticas à decisão da UE, sustentando que as causas que justificaram as medidas aprovadas em 2003 não variaram e que seguem presos 55 dos 75 condenados.

Além disso, culparam o Governo de José Luis Rodríguez Zapatero de ter impulsionado uma decisão com a qual, segundo eles, "a Espanha pôs em risco seu prestígio" e pode sofrer um alto custo político caso a suspensão das medidas não seja correspondida por Havana.

"Enquanto (o ministro de Assuntos Exteriores espanhol) Miguel Ángel Moratinos festeja seu novo triunfo diplomático, desejamos ao Governo da Espanha sucessos também em conseguir a imediata e incondicional libertação de nossos prisioneiros e o progresso dos direitos em Cuba", diz a opositora Miriam Leiva em artigo divulgado hoje.

Leiva, que foi fundadora da organização Damas de Branco, integrada por parentes dos presos, Moratinos "transformou a suspensão das sanções em uma questão pessoal" e acusa a Espanha e os representantes da UE em Cuba de ignorarem a dissidência.

"O que se pode esperar do Governo de Zapatero? Não se pode esperar nada", disse à Efe Vladimiro Roca, do grupo Todos Unidos.

"Para nós não muda nada. Vamos seguir lutando pelas mudanças rumo à democracia. Isto é o que já sabemos: que não podemos contar com alguns países da UE", acrescentou.

Zapatero explicou hoje em Bruxelas que "os passos dados e a tarefa" da diplomacia espanhola "foram positivos", e expressou sua confiança em que "também sejam os passos dados por Cuba".

Em comuniado divulgado hoje, a Fundação Nacional Cubano Americana (FNCA), com sede em Miami, afirma que o levantamento das sanções é "uma tentativa de legitimar a ascensão não democrática de Raúl Castro à Presidência da ilha".

O texto diz que medida liberaria o atual líder cubano das conseqüências da "repressão que diretamente administra" como uma peça fundamental do comando de seu irmão Fidel Castro.

Consultados pela agência Efe em Havana, analistas afirmaram que a UE jogou a responsabilidade pro lado cubano.

"O ponto de maior atrito com Cuba, que era este, já desapareceu da equação. Neste momento os Estados-membros da UE interpretam que a bola está no campo cubano e agora cabe a Cuba apoiar todos os que fizeram um esforço para convencer seus parceiros", disse o analista.

Outro analista considerou importante ver que Havana defende "que daqui a um ano o impacto do levantamento das medidas seja avaliado".

Para um observador americano, agora é preciso ver como Havana responderá à suspensão de algumas sanções que eram ofensivas ao "parâmetro moral" do Governo de Cuba, embora "em termos de estabilidade local, a libertação dos 55 não gere protesto sociais".

A avaliação dos resultados da decisão será feita no próximo ano, quando a UE será presidida pela República Tcheca, um dos países mais reticentes ao fim das barreiras à ilha e que atualmente não tem contato político com a Chancelaria cubana.

A Suécia, que liderou a oposição ao fim das sanções, substituirá os tchecos na Presidência rotativa no segundo semestre de 2009. EFE jlp/rr

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