Governo Bush termina, mas democratas não querem esquecer

César Muñoz Acebes. Washington, 19 jan (EFE).- O presidente dos Estados Unidos, George W.

EFE |

Bush, está com as malas feitas hoje, mas alguns legisladores democratas pretendem perturbar seu descanso com investigações sobre suspeitas de violações da lei durante seu mandato.

A saída de Bush amanhã da Casa Branca, com um índice de aprovação que mal passa de 20%, marca o declínio do Partido Republicano nos Estados Unidos, que há dois anos já perdera o controle do Congresso.

A animosidade dos democratas do Congresso pelo 43º presidente dos Estados Unidos é profunda, após oito anos nos quais ele expandiu o poder do Executivo de forma extraordinária e reduziu as funções de supervisão do Congresso.

O presidente eleito, Barack Obama, manifestou pouco interesse em remoer o passado, preocupado principalmente com seus planos para ressuscitar a economia.

No entanto, alguns membros da esquerda de seu partido se negam a esquecer e a perdoar.

O presidente do Comitê Judicial da Câmara de Representantes (Deputados), John Conyers, quer criar uma comissão independente para investigar se o Governo Bush cometeu crimes em sua guerra contra o terrorismo.

A presidente de essa câmara, Nancy Pelosi, também democrata, mostrou-se aberta à ideia.

"Quero que a verdade venha à luz", disse Pelosi ontem em entrevista na televisão. "É preciso olhar cada tema e ver se a lei foi violada", acrescentou.

Todas as indicações apontam que, sim, houve crimes no tratamento a suspeitos de terrorismo. Susan Crawford, que supervisiona os julgamentos nos tribunais especiais de Guantánamo, reconheceu que os Estados Unidos torturaram um preso ali.

Além disso, a agência de inteligência americana CIA admitiu ter submetido pelo menos três detentos a asfixias simuladas, uma técnica que a equipe de Obama considera tortura.

Isso foca o alvo no vice-presidente, Dick Cheney, e no ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld, que estimularam o uso de métodos duros nos interrogatórios após os atentados de 11 de setembro, e no próprio Bush, que tinha a responsabilidade final.

No entanto, nos Estados Unidos não há tradição de investigar ex-líderes sobre suspeitas de crimes cometidos durante o desempenho do cargo.

Um alvo mais imediato das pesquisas seriam os agentes da CIA suspeitos de envolvimento.

No entanto, ainda resta saber se existe vontade política para interrogá-los por abusos incitados por ordens superiores contra supostos terroristas, dado o grande respeito que existe nos Estados Unidos pelas forças da ordem.

"Na CIA, temos pessoas com um talento extraordinário que trabalham com afinco para proteger os americanos. Não quero que, de repente, sintam que têm que passar todo o tempo olhando por cima do ombro e procurando advogados", disse Obama, há uma semana.

Isso não impede que os próprios detidos apresentem processos ou que se julguem casos em cortes européias, que demonstraram disposição de investigar crimes de lesa-humanidade cometidos no estrangeiro.

Os desejos dos democratas de farejar as políticas de Bush vão além do tema da tortura.

Conyers detalhou uma coletânea de supostos atropelos da lei em um livro de 486 páginas intitulado "Frear a Presidência imperial".

Nele, inclui o lançamento de "uma guerra de agressão desnecessária contra o Iraque" baseada em dados de inteligência "manipulados".

Jerrold Nadler, que preside a subcomissão da Constituição na Câmara Baixa (dos Deputados) disse que revisará o programa de escutas sem autorização judicial estabelecido por Bush e as prisões secretas da CIA.

Por sua parte, Pelosi assinalou que os Estados Unidos "não podem deixar sem revisão a sujeição do departamento de Justiça aos interesses políticos".

O segundo procurador-geral de Bush, Alberto Gonzales, renunciou após ser revelado que seu departamento exonerou alguns promotores aparentemente por razões políticas.

"Entendo que muitos achem que deveríamos fazer borrão e conta nova", disse Conyers na sexta-feira em artigo de opinião.

"Mas, na minha opinião, não seria responsável começar nosso caminho para frente sem saber primeiro exatamente onde estamos", acrescentou. EFE cma/jp

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