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Governo brasileiro nega ter cooperado com as Farc

O assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia negou nesta quinta-feira que o governo brasileiro tenha cooperado com a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) como afirmou uma reportagem publicada na revista colombiana Cambio.

Redação com agências internacionais |

A edição da revista colombiana Cambio publicada, nesta quinta-feira,  afirmando que a presença da guerrilha no Brasil "chegou até as mais altas esferas" do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao PT, aos líderes políticos brasileiros e ao Poder Judiciário.

"Não há nenhuma cooperação do governo brasileiro com as Farc, nenhuma. Basta ler os documentos para ter isso claro", afirmou Garcia à BBC Brasil por telefone.

O assessor da Presidência está no Paraguai e disse não ter lido a matéria publicada nesta quinta-feira. "Isso parece provocação, não há nenhuma cooperação. É questão de perguntar ao presidente Uribe e tirar (a versão)".

Além de Marco Aurelio Garcia, a reportagem cita o ex-ministro José Dirceu, o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho o chanceler Celso Amorim entre outros.

O Itamaraty também negou qualquer vínculo do chanceler Amorim com as Farc. "Nunca houve qualquer forma de contato direto ou indireto do ministro Celso Amorim com qualquer membro ou representante das Farc", disse à BBC Brasil a assessoria de imprensa do Itamaraty.

'Desestabilização'

A deputada petista Erika Kokay, apontada na reportagem como uma das facilitadoras de uma atividade política supostamente coordenada com as Farc, negou qualquer envolvimento com o grupo armado, mas afirmou ter colaborado com o processo que permitiu o outorgamento do status de refugiado a Olivério Medina.

"Eu nunca tive qualquer tipo de relação com a guerrilha. Eu só conheço o padre Olivério e apoiei sua condição de refugiado aqui no Brasil porque ele corria um risco concreto de morte se fosse repatriado. Essa é a única relação", afirmou a deputada à BBC Brasil.

Há dois anos, Medina recebeu o status de refugiado político. Para a parlamentar, a reportagem "tenta desestabilizar o governo democrático do Brasil".

Em uma mensagem escrita em junho de 2005 por "José Luís" dirigida a Raul Reyes, aparece o nome do ex-ministro José Dirceu. De acordo com os supostos documentos, Dirceu teria pedido ao jornalista Breno Altman que realizasse o contato com José Luís.

'Mentira'

"Breno Altman me disse que vinha da parte do ministro da Presidência, José Dirceu, e que, por motivos de segurança, eles haviam acordado que as relações não passariam pela Secretaria de Relações Internacionais e sim que fosse feita diretamente através do ministro com a representação de Breno", disse o email, segundo a revista Cambio.

Consultado pela BBC Brasil, Altman também negou as afirmações. "Isso é mentira. Nunca fui assessor do Dirceu ou membro do governo, nem do PT para poder estabelecer vínculos deste tipo", afirmou Altman.

O jornalista disse que conheceu José Luís em Havana, em 2005, em um encontro organizado pelo governo cubano contra o terrorismo. "Contei a ele que estava escrevendo um livro, que não concluí, sobre as lideranças de esquerda da América Latina e que gostaria de entrevistar Marulanda e Raul Reyes, só isso. Falei como jornalista", afirmou.

"Embaixo da mesa"

A conclusão foi tirada de supostos e-mails encontrados no computador do ex-porta-voz internacional das Farc "Raúl Reyes", afirma a última edição da revista, que entrou em circulação nesta quinta-feira.

O governo colombiano, no entanto, "usou seletivamente os arquivos do computador de 'Raúl Reyes'".

A publicação acrescenta que com "Equador e Venezuela, os arquivos foram usados para colocar em contradição o presidente venezuelano Hugo Chávez e o presidente equatoriano Rafael Correa, hostis ao chefe de Estado colombiano Álvaro Uribe".

Com o Brasil, "a articulação foi feita embaixo da mesa para não comprometer Lula, que se mostrou mais hábil e menos combativo com a Colômbia", destacou a revista "Cambio".

Nos e-mails de "Reyes" - cujo nome verdadeiro era Luis Edgar Devia e que foi morto por tropas colombianas em solo equatoriano em primeiro de março - são mencionados "cinco ministros, um procurador-geral, um assessor especial da Presidência, um vice-ministro, cinco deputados, um vereador e um juiz superior" brasileiros, acrescentou a revista.

Algumas mensagens foram escritas durante o processo de paz da Colômbia entre 1998 e 2002 em San Vicente del Caguán, durante o governo do então presidente colombiano Andrés Pastrana, "e envolvem um prestigioso juiz e um alto ex-oficial das Forças Armadas brasileiras".

A mesma reportagem diz que "a expansão das Farc na América Latina não incluiu apenas funcionários dos governos de Venezuela e Equador, mas também comprometeu importantes dirigentes, políticos e altos membros do PT".

A "Cambio" cita o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, o ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, a deputada distrital Erika Kokay e o chefe de Gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho.

Também são mencionados nesses e-mails o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, o assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, o subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cipriano, o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, e o assessor presidencial Selvino Heck.

A "Cambio" disse que teve acesso aos 85 e-mails de "Reyes" entre fevereiro de 1999 e fevereiro de 2008 enviados e respondidos pelo líder máximo das Farc, "Manuel Marulanda" ou "Tirofijo", cujo nome verdadeiro era Pedro Antonio Marín e que morreu este ano.

Ainda segundo a "Cambio", há mensagens de "Reyes" para o chefe militar das Farc, "Mono Jojoy" - cujo nome verdadeiro é Jorge Briceño -, e para Francisco Antonio Cadena Collazos - conhecido como padre Olivério Medina e "Cura Camilo" e que atua como delegado das Farc no Brasil - e de todos eles com dois homens identificados como "Hermes" e "José Luis".

(*Com informações da agência AFP e da BBC)

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