Governo boliviano minimiza referendo e oposição quer diálogo com Morales

Santa Cruz (Bolívia), 5 mai (EFE) - O Governo do presidente boliviano, Evo Morales, minimizou mais uma vez hoje os resultados do referendo autonomista de Santa Cruz, enquanto a oposição pediu ao chefe de Estado sinais claros para abrir o diálogo com as regiões opositoras.

EFE |

A região de Santa Cruz (leste) voltou hoje à normalidade após a jornada eleitoral de domingo, quando se criou um estatuto de autonomia - separatista para o Governo -, aprovado em um referendo marcado por choques violentos que deixaram 35 feridos.

Segundo as pesquisas de boca-de-urna de domingo e os primeiros dados oferecidos hoje pela Corte Departamental Eleitoral com um terço das apurações, o estatuto foi ratificado por mais de 80% dos moradores de Santa Cruz que foram às urnas, com uma abstenção de quase 35%.

No entanto, o Governo reiterou que a metade da população local rejeita o estatuto autônomo, ao se basear em dados "da própria imprensa", que indicam 40% de abstenção e 10% de votos contra o estatuto autônomo.

Apesar de desconhecer o referendo e seus resultados, Morales convocou no domingo para conversas os governadores regionais de oposição para estabelecer uma "verdadeira" autonomia.

O porta-voz do Governo, Ivan Canelas, disse hoje que o Executivo vai esperar que os governadores expressem sua aceitação, e depois o presidente fixará pessoalmente a "data e hora" do encontro "o mais rápido possível, ainda esta semana".

"A aplicação do estatuto (de Santa Cruz) é praticamente nula, de modo que há necessidade de iniciar um processo de diálogo", explicou Canelas.

Na oposição, o líder da aliança conservadora Podemos e ex-presidente da Bolívia, Jorge Quiroga, exigiu que Evo Morales dê sinais "claros" para abrir este processo de diálogo e sugeriu que, por exemplo, "deixe de sabotar a economia produtora".

Em entrevista à Agência Efe em Santa Cruz, Quiroga voltou a dizer que a oposição está disposta a negociar uma saída para crise vivida pelo país, mas pediu antes que se retire o veto à exportação de óleo de soja, o principal produto agrícola de Santa Cruz.

Sobre os argumentos usados por Morales para qualificar de "fracasso" a consulta de Santa Cruz, Quiroga lamentou que o presidente boliviano desqualifique o referendo "em vez de receber essa mensagem tão contundente de 600 mil bolivianos".

"Nunca houve essa quantidade de votos em nenhum processo", afirmou.

À espera de quando será a chamada para a conversa, analistas e especialistas concordam em que o referendo de Santa Cruz abriu uma nova etapa na crise política da Bolívia, dividida entre o projeto de Morales e a "rebelião" autônoma de seis regiões opositoras.

Analistas procurados pela Efe dizem que esta consulta evidenciou a divisão existente no país entre as regiões da chamada "meia-lua" (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), onde se concentram os principais recursos econômicos do país, e o empobrecido planalto.

Os analistas também acreditam que a liderança crescente do poder autônomo na Bolívia deve levar o Governo a rever sua postura e iniciar um caminho de convergência sem imposições.

A comunidade internacional está atenta à evolução do conflito político boliviano, no qual inclusive intervieram como mediadores, embora sem resultados, a Igreja Católica e a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Precisamente, o secretário-geral da OEA, o chileno José Miguel Insulza, descartou hoje a possibilidade de um rompimento institucional na Bolívia após o referendo autônomo de Santa Cruz.

Ele também avaliou positivamente que todos os atores da política boliviana tenham manifestado sua disposição ao diálogo como via de solução à crise. EFE sam/rb/db

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