Governo argentino tenta ratificar imposto agrícola no Congresso

Por Karina Grazina BUENOS AIRES (Reuters) - O governo argentino dobrou as apostas na terça-feira ao enviar ao Congresso um projeto de lei para ratificar a alta de impostos sobre a exportação de grãos, desafiando o setor ruralista que, há cem dias, rechaça a medida por meio de paralisações e bloqueios que abalam o país.

Reuters |

A presidente da Argentina, Cristina Fernández, também confirmou que, na quarta-feira, será realizada uma mobilização de massa em apoio ao governo na disputa com os fazendeiros, ignorando o apelo de aliados e opositores para cancelar o ato e, assim, baixar a temperatura do conflito.

'Vou enviá-lo (o projeto de lei) para que, no Parlamento, também se discuta a medida', disse ela em um evento realizado na Casa Rosada antes de mandar o texto ao Legislativo.

Por lei, o governo não precisa submeter ao aval do Congresso decisões sobre os impostos aduaneiros, mas Cristina disse que faria isso porque, para os produtores rurais, 'não basta que a medida tenha sido adotada por esta presidente, que seis meses atrás se elegeu com 46 por cento dos votos'.

Apesar de os governistas serem a maioria nas duas casas do Congresso, a decisão de Cristina foi bem recebida pelos ruralistas, que vêem nela uma oportunidade para que os legisladores das províncias onde o setor agropecuário tem grande peso sejam pressionados a rechaçar o aumento.

'Isso representa um avanço porque assim surgirá a verdade capaz de mudar as coisas. Agora há esperança de que tudo se resolva democraticamente', afirmou, minutos depois do discurso de Cristina, Alfredo De Angeli, um dos líderes ruralistas.

Senadores da oposição também viram com bons olhos o anúncio, mas asseguraram que tentarão fazer com que sejam debatidos outros projetos a respeito dos impostos que incidem sobre a exportação de grãos.

O anúncio do governo acontece um dia depois de milhares de argentinos terem saído às ruas de Buenos Aires e de várias cidade do interior para bater panelas exigindo que a presidente negocie com o setor ruralista.

Mais tarde os agricultores afirmaram que definirão na quarta-feira se vão estender a greve contra a alta de impostos, até avaliar o projeto de lei anunciado pela presidente.

O governo garante que o aumento nos impostos é essencial para manter sob controle o preço dos alimentos em um país que registra altos índices de inflação e para obter verba para um novo plano de obras públicas.

O ex-presidente Néstor Kirchner, que possui grande influência no governo de sua mulher, concedeu uma entrevista coletiva na qual repetiu o discurso das autoridades argentinas e defendeu a decisão de realizar mobilizações populares na quarta-feira.

'Nós temos todo o direito do mundo de nos manifestarmos democraticamente. Nós não faremos esse ato contra ninguém, mas sim em defesa da democracia', afirmou Kirchner.

O governo acredita que as classes urbanas pobres, que votaram em massa em Cristina, sejam mais representativas do que os cidadãos da classe média, que protestaram com suas panelas para rechaçar o estilo de confronto adotado pela presidente.

No entanto, segundo pesquisas, a popularidade de Cristina vem sofrendo e caiu para menos de 20 por cento. De outro lado, o som das panelas faz lembrar para muitos a queda, em 2001, do presidente Fernando de la Rúa, que deixou o poder em meio a uma enxurrada de críticas.

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