Governo argentino coloca pobres no meio do conflito com produtores rurais

Natalia Kidd Buenos Aires, 9 jun (EFE).- O Governo argentino colocou hoje as dívidas pendentes com os pobres no eixo da disputa com o setor rural, que há três meses protesta contra os impostos sobre as exportações de grãos.

EFE |

Em mensagem transmitida em rede nacional, a presidente do país, Cristina Fernández, anunciou a criação de um "programa de redistribuição social" que destinará o arrecadado com o aumento dos impostos à construção de hospitais, postos de saúde, casas e estradas rurais.

"Pergunto a todos os argentinos se realmente estamos decididos a abordar o problema da pobreza, porque, sem redistribuir rendas exorbitantes, é impossível", disse no discurso que pronunciou na sede do Executivo a cerca de mil convidados, entre empresários, sindicalistas e políticos.

Cristina alegou que os tributos impostos em 11 de março às exportações de milho, trigo, girassol e soja têm como fim resguardar a "soberania alimentar" dos argentinos e assegurar a redistribuição da riqueza "daqueles setores que têm mais renda".

Além disso, criticou a reação daqueles que se recusam "a contribuir com a redistribuição da renda para aqueles que menos têm", em uma clara referência aos produtores rurais, que há três meses bloqueiam estradas e promovem outras medidas de protesto.

As quatro organizações agropecuárias em conflito com o Governo comemoraram o investimento em obras sociais, mas questionaram a origem dos fundos derivados exclusivamente do setor rural.

"Há outros setores que têm tanta renda quanto o nosso", disse em entrevista coletiva o presidente das Confederações Rurais Argentinas, Mario Llambías.

O dirigente afirmou que "a pobreza está aumentando" e que é "dever de todos" erradicá-la, "mas isto não quer dizer que as retenções sejam válidas por este motivo".

Com o aumento dos impostos, a taxa sobre os grãos vendidos para o mercado externo subiu de 35% para quase 42%, mas ainda pode chegar a 52,7%, caso os preços dos produtos subam.

O presidente da Federação Agrária, Eduardo Buzzi, também disse que é "inegável que é preciso solucionar a pobreza", mas destacou que o esforço deve ser mais uniforme e compartilhado com outros setores produtivos.

Em seu discurso, Crisitna reconheceu que talvez tenha sido um "erro" ou uma "ingenuidade política" de sua parte acreditar que uma medida com fins redistributivos seria seguida por um setor com uma "renda exorbitante".

"Ainda há gente sem trabalho, sem casa, sem saúde e sem educação.

Precisamos nos esforçar muito porque ainda há muita dívida social pendente", acrescentou.

A governante também ressaltou que a soberania alimentar dos pobres é a que fica mais ameaçada, sobretudo em um momento em que o mundo enfrenta a alta dos preços dos alimentos.

Cristina, que amanhã completará seis meses no Governo e cuja popularidade despencou com o aumento da inflação e o conflito com o campo, também convocou "todos os argentinos" para que, em um diálogo "sem imposições", tratem dos "temas pendentes" do país.

"A presidente convocou todos. Espero que também nos convoque o mais rápido possível para discutir a sério uma política agropecuária integral", rebateu Buzzi.

O Governo rompeu o diálogo com as entidades agropecuárias há duas semanas e hoje não enviou representantes para uma reunião com os produtores rurais convocada pelo defensor público do país, Eduardo Mondino.

Em resposta, Mondina enviou uma nova carta à chefia de gabinete e ao Ministério da Economia para que seus titulares se apresentem amanhã. Além disso, anunciou que pedirá uma audiência com Cristina.

O defensor também pediu às organizações agropecuárias que, em nome de negociações tranqüilas, não promovam ações diretas de protesto.

Buzzi reconheceu que entre os produtores há "muito mal-estar".

Porém, pediu às bases que mantenham "a calma" e ajam "com racionalidade".

"Temos que conseguir soluções rápidas porque o mal-estar existe entre os produtores. O produtor está perdendo muito, e também o país e o mundo, que precisa dos alimentos produzidos pela Argentina", disse o dirigente.

A Argentina é o maior exportador mundial de sementes de girassol, o segundo de milho, o terceiro de soja e o quarto de trigo. Além disso, ocupa postos de relevância no comércio global de derivados (óleos e farinhas) destes grãos. EFE nk/sc

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