Governo americano autorizou uso de métodos ilegais em interrogatórios

Um memorando interno do ministério americano da Justiça, emitido em 2003 e desarquivado, nesta semana autorizava aos investigadores militares a utilizar métodos extremamente duros durante os interrogatórios de supostos membros da Al-Qaeda.

AFP |

O documento, enviado ao Pentágono, destacava que estes militares não precisavam respeitar as leis americanas e internacionais que proíbem os maus-tratos, devido à autoridade concedida ao presidente dos Estados Unidos em tempos de guerra.

Abandonada nove meses depois de ter sido redigida, "esta nota criou o clima fora-da-lei que levou diretamente aos abusos cometidos contra prisioneiros em Abu Ghraib", a prisão iraquiana onde casos de simulações de afogamento e outras sevícias foram constatados, reagiu nesta quarta-feira o presidente democrata da comissão das Relações Exteriores do Senado, Joseph Biden.

O comunicado "mostra que o ministério da Justiça praticamente deu carta branca ao Pentágono para recorrer à tortura", destacou Amrit Singh, uma jurista que trabalha para a organização de defesa das liberdades individuais ACLU.

Se um investigador trabalhando para o governo "maltratasse um combatente inimigo durante um interrogatório", de uma forma que pudesse ser considerada como contrária à lei, "seria para impedir novos ataques da rede terrorista Al-Qaeda contra os Estados Unidos", alegava a nota.

O documento de 81 páginas foi redigido num momento em que o Pentágono tentava elaborar uma lista de métodos de interrogatórios autorizados para utilizá-los na base americana de Guantánamo, em Cuba, onde os Estados Unidos mantêm suspeitos de terrorismo.

Após receber esta nota, em abril de 2003, um grupo de trabalho do Pentágono aprovou a utilização de "táticas extremamente agressivas", revelou o Washington Post.

Segundo a ACLU, o documento acaba com as justificativas do governo de George W. Bush para os abusos perpetrados em Abu Ghraib, que foram apresentados como aberrações cometidas por iniciativa própria por alguns militares subalternos. "A nota mostra que esses abusos foram provocados pela política do governo", declarou Singh.

O presidente da comissão dos Assuntos Judicários do Senado, o democrata Patrick Leahy, considerou que o documento publicado "confirma a visão muito ampla do poder executivo que caracteriza o governo Bush".

"Isso mostra como o Departamento de Justiça deu carta branca ao Pentágono para a tortura", acusou Amrit Singh, advogada da American Civil Liberties Union.

"Este documento é prova que as políticas da administração Bush estão acarretando esses abusos", indicou Singh.

O Pentágono afirmou que sempre procurou tratar bem os prisioneiros. "Nossa política é tratar os detentos com humanidade", garantiu um porta-voz do ministério da Defesa, o comandante JD Gordon, em entrevista à AFP.

ksb/yw

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