Governo afegão cobra véus e menos maquiagem na TV

Jornalistas consideram medida prova de que autoridades consideram que Taleban recuperará parcela do poder após eventuais negociações de paz

Reuters |

Um pedido do governo afegão para que as apresentadoras de televisão usassem véus na cabeça e evitassem maquiagem pesada enfureceu os jornalistas nesta terça-feira, que consideraram a medida uma prova de que as autoridades esperam que a milícia islâmica do Taleban recupere uma parcela do poder.

AP
Vestindo a burca, mulheres compram lenços de vendedor de rua em Cabul, capital do Afeganistão (06/12)
Autoridades afegãs e americanas estão buscando negociações de paz com o grupo islamista deposto do poder há mais de uma década com o intuito de manter a estabilidade depois que as tropas estrangeiras deixarem o país, mas as conversas estão em um estado muito frágil.

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Em uma carta distribuída à mídia, o Ministério da Cultura e Informação disse ter recebido reclamações de membros do Parlamento e de famílias de que as apresentadoras de programas de notícias não estavam observando a ética islâmica e cultural.

"Todas as apresentadoras de notícias devem evitar maquiagem pesada e usar um véu", disse o ministro Sayed Makhdoom Rahin à Reuters por telefone, acrescentando que isso se aplicava às emissoras de televisão privadas e estatais.

O pedido do ministério foi uma surpresa para parte da mídia afegã. Todas as âncoras dos programas apareceram com suas cabeças cobertas, o que provocou rumores de que a diretiva visava a impressionar o Taleban, fazendo concessões a suas posições ultraconservadoras.

"Já que estamos no início de conversas sérias de paz e reconciliação, o governo quer mostrar que é como o Taleban", disse Zarghoona Roshan, que durante dez anos foi jornalista de rádio antes de entrar para o grupo de mídia Nai.

"O próprio pedido é inútil", disse Roshan, ajustando seu véu negro e cinza. A Nai, que também rastreia as infrações da mídia, estima que existam cerca de 120 apresentadoras de televisão no país. O diretor-executivo da Nai, Abdul Mujeeb Khalvatgar, disse que o governo exerceu pressão ao longo de todo o ano passado para limitar o conteúdo e "manter o público longe dos fatos de que precisam".

"Nos preocupamos e tememos que essa pressão seja o início da limitação da mídia, e isso seja por causa do Talban. Eles estão preparando o caminho para eles", disse.

Khalvatgar citou vários exemplos de pressão sobre a imprensa no último ano, incluindo jogar ácido em um jornalista afegão veterano e proibir que uma novela turca fosse ao ar.

Embora as mulheres afegãs tenham recuperado direitos básicos, como o de acesso à educação, de votar e de trabalhar desde que o Taleban foi derrubado em 2011, seu futuro permanece incerto enquanto autoridades afegãs e americanas negociam com o grupo linha dura.

À medida que se aproxima o prazo de 2014 para que as tropas de combate estrangeiras voltem para casa, alguns ativistas dentro e fora do Afeganistão temem que os direitos das mulheres possam ser sacrificados na luta para garantir que o Ocidente deixe para trás um Estado relativamente estável e pacífico.

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As autoridades americanas disseram na semana passada que queriam acelerar as conversas para que as negociações de paz possam ser anunciadas em uma cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em maio. O anúncio do Taleban no mês passado de que abria um escritório político no Catar foi visto como um prelúdio para as conversas de paz.

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