Golpistas tentam tranqüilizar o mundo com anúncio de eleições na Mauritânia

Maaruf Uld Udaa Nuakchott, 7 ago (EFE).- Os generais que protagonizaram o golpe de Estado na Mauritânia anunciaram hoje a realização de eleições presidenciais o mais rápido possível diante da incerteza gerada na última quarta pela ação golpista e pelas condenações recebidas pela comunidade internacional.

EFE |

O Conselho de Estado, presidido pelo general Mohammed Ould Abdelaziz (chefe da Guarda Presidencial) e formado por outros dez militares de alto escalão, afirmou em mensagem exibida pela TV estatal que as eleições, que não tiveram data divulgada, serão realizadas de forma "livre e transparente".

Estas eleições acontecerão no âmbito de um acordo com as instituições e forças políticas assim como com a sociedade civil, com o objetivo de "relançar o processo democrático no país e estabelecê-lo sobre uma base sólida e duradoura", acrescentou.

No comunicado, os militares também anunciaram oficialmente sua decisão de "acabar definitivamente com o poder do presidente da República, investido em abril de 2007, e de tomar as disposições necessárias para garantir a continuidade do Estado".

É a primeira vez que os militares divulgam sua intenção de dar por concluída a Chefia de Estado do presidente mauritano, Sidi Mohammed Ould Cheikh Abdallahi, e os motivos que os levaram ao golpe de Estado, enquanto se comprometeram a "respeitar todos os tratados, convenções e compromissos assinados pela Mauritânia".

Com sua mensagem, os militares parecem querer tranqüilizar a comunidade internacional, que condenou o golpe e mostrou preocupação pela detenção tanto do presidente quanto do primeiro-ministro mauritano, Yahya Ould Ahmed el-Waghef.

A maior parte da comunidade internacional rechaçou a mudança política através de um golpe de Estado contra um presidente eleito em eleições livres e democráticas após uma reforma constitucional e um calendário de atuação auspiciado pelos próprios generais.

A tensão entre os militares e Abdallahi, que surgiu há alguns meses, se precipitou após o anúncio da destituição pelo presidente dos até então chefes de Estado-Maior do Exército, da Guarda Presidencial, da Gendarmaria Nacional e da Guarda Nacional.

Estas mudanças - que fazem parte das prerrogativas constitucionais do presidente - foram declaradas "nulas e sem efeito jurídico" pelos militares, que mantêm detidos o presidente e o primeiro-ministro e colocaram sob vigilância militar a mulher de Abdallahi no palácio presidencial.

Se a opinião internacional é unânime ao condenar o golpe, as opiniões são opostas.

A divisão das forças políticas mauritanas se materializou hoje no centro de Nuakchott em duas manifestações convocadas por grupos de partidários e de contrários aos militares.

"Condenamos o que aconteceu e continuaremos fazendo isto", declarou o vice-presidente da Aliança Popular Progressista (APP, da maioria governista), El Khalil Ould Teyib.

Teyib também pediu a volta da "legitimidade constitucional, o que significa o retorno de Abdalahi ao poder e o início de um diálogo nacional para evitar a entrada do país em uma crise e suas nefastas conseqüências".

Para o vice-presidente do principal partido da oposição, Reagrupamento de Forças Democráticas (RFD), Mohammed Mahmoud Ould Lemmat, "é muito inquietante que os militares não tenham fixado uma data exata para a realização de eleições presidenciais".

Lemmat também considerou preocupante o "não esclarecimento pelo Conselho de Estado de suas intenções a respeito das candidaturas" nestas eleições e sobre a possibilidade de os membros deste Conselho poderem se apresentar ou não ao pleito.

O vice-presidente do RFD lembrou que os generais se comprometeram a devolver o poder aos civis após o golpe de Estado de agosto de 2005, que derrubou o presidente Maaouya Ould Sidi Ahmed Taya, cumprindo a convocação de eleições presidenciais de 2007, mas que acabam de romper com este novo golpe militar.

A União de Forças do Progresso (UFP), partido aliado a Abdalahi, expressou sua condenação ao golpe, enquanto o Partido Republicano para a Democracia e a Renovação (PRDR), a legenda de Taya, expressou seu apoio.

Dezenas de milhares de manifestantes tomaram hoje as principais ruas da capital mauritana para mostrarem seu apoio ao golpe de Estado.

Ao chegarem ao palácio presidencial, o general Abdelaziz disse que as forças de segurança continuam do lado dos cidadãos em busca da solução de seus problemas.

Abdelaziz agradeceu o interesse mostrado pela população nos assuntos do país e, após este discurso, voltou para dentro do palácio acompanhado pelos outros membros militares. Com isto, os manifestantes deram por concluído seu protesto.

A marcha contou com a participação de membros do RFD e do PRDR, além da de representantes de sindicatos de associações da sociedade civil.

Um outro protesto, desta vez a favor do presidente deposto, foi dispersado hoje pelas forças de segurança mauritanas.

A marcha foi convocada por integrantes de quatro partidos políticos que se constituíram na autodenominada Frente Nacional de Defesa da Democracia.

Entre os membros deste grupo estão o Pacto Nacional pela Democracia e o Desenvolvimento (PNDD), a APP, o islâmico Tawassoul e a UFP.

Os integrantes da Frente Nacional de Defesa da Democracia devem realizar uma entrevista coletiva ainda hoje para denunciar a atuação da Polícia e expressar sua postura política diante dos eventos. EFE mo/wr/fal

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