Golpistas prometem eleições e instauram o toque de recolher na Guiné

Os militares golpistas que afirmam ter tomado o poder na Guiné prometeram nesta quarta-feira organizar eleições livres, confiáveis e transparentes em dezembro de 2010 e instauraram nesta quarta-feira o toque de recolher em todo o país das 20H00 às 06H00 local, segundo comunicado lido na rádio nacional.

AFP |

Além disso, designaram o capitão Musa Dadis Camará, o militar que até então lia todos os comunicados na rádio nacional em nome dos golpistas, como chefe da junta militar.

A sucessão de comunicados militares aconteceu em meio a uma grande confusão reinante no país, o preocupa a comunidade internacional que condenou a tentativa de golpe ocorrida algumas horas depois do anúncio da morte do presidente Lansana Conté.

Nesta quarta-feira, o comércio e as escolas permaneceram fechadas em Conacri e a grande maioria da população preferiu ficar em casa com receio de eventuais violências.

Numdos comunicados, os militares golpistas também denunciam que alguns oficiais leais avaliam a intervenção de mercenários procedentes de países vizinhos que já estariam no país.

"Povo da Guiné, a tomada de poder pelo seu Exército é um ato de civismo, que responde à vontade de salvar um povo desamparado. Orgulhoso de ter cumprido esta missão, o Conselho (junta) não tem nenhuma ambição de perpetuar-se no poder", afirma o texto lido.

"A única razão é a preocupação pela salvaguarda da integridade territorial. É por isto que, sem reflexão profunda, o Conselho se compromete a organizar eleições livres, confiáveis e transparentes no fim de dezembro de 2010", acrescenta.

"O Conselho se compromete solenemente a respeitar esta declaração", completa o comunicado.

O mandato do presidente Lansana Conté terminaria em dezembro de 2010.

O texto também critica militares leais à Assembléia Nacional: "Alguns oficiais seguem reconhecendo a legitimidade sem referência constitucional do mandato da Assembléia Nacional. Tal comportamento demonstra uma falta de respeito em relação ao povo da Guiné, que defendemos e protegemos incondicionalmente".

"Avaliam a intervenção de mercenários procedentes de países vizinhos que já estão dentroda Guiné. As conseqüências de uma ação semelhante serão obra destes generais. Um comportamento semelhante não é digno de um cidadão responsável e conseqüente que ama sua pátria", conclui o comunicado.

Após o anúncio da morte de Conté, que estava no poder desde 1984, surgiram rumores de um golpe de Estado no país, mas os dois principais dirigentes políticos recusaram-se a reconhecer a suposta decisão por parte de elementos das Forças Armadas guineanas.

O presidente da Assembléia Nacional, Abubacar Somparé, chegou a afirmar que "uma minoria de soldados e oficiais está envolvida" na ação, e que "a grande maioria permanece fiel" ao poder.

No início da manhã, poucas horas depois do anúncio da morte do "presidente general", o capitão Mussa Dadis Camara leu o seguinte comunicado na rádio nacional: "A partir de hoje, a Constituição está suspensa, assim como todas as atividades políticas e sindicais".

"O governo e as instituições republicanas foram dissolvidos", acrescentou, anunciando a instalação de um "conselho consultivo formado por civis e militares".

Os golpistas justificaram sua ação tomando como base os "desvios de fundos públicos", a "corrupção generalizada", a "impunidade elevada e a falta de método de governo" assim como a "anarquia no aparelho do Estado".

Nenhuma violência foi registrada no país desde a morte do presidente e a tentativa de golpe de Estado, mas reina uma certa confusão entre os golpistas.

Negociações foram organizadas no campo Alfa Yaya Diallo, o maior do país, e a maioria dos golpistas escolheu como líder o tenente-coronel Sekouba Konaté, comandante do batalhão autônomo das tropas aerotransportadas (Bata), a principal unidade de elite do Exército.

No entanto, segundo militares fiéis ao poder, vários golpistas rejeitaram esta escolha porque Konaté não é o militar de maior patente.

O presidente Lansana Conté, 74 anos, tinha chegado ao poder em 1984 graças a um golpe de Estado militar, pouco depois da morte do "pai da independência", Ahmed Sekou Touré.

Ele sempre se apoiara no Exército para se manter no poder, mas dissensões entre os oficiais e a tropa tinham surgido recentemente.

Uma fonte ligada à família Conté informou que o enterro do presidente acontecerá na sexta-feira.

"O funeral nacional será celebrado na sexta-feira e depois o corpo será sepultado na cidade natal de Lansanya (100 km ao norte de Conakri)", afirmou uma fonte.

A União Européia (UE), a União Africana (UA), os Estados Unidos e a Federação Internacional das Ligas dos Direitos Hunmanos (FIDH) condenaram a tentativa de golpe de Estado na Guiné, e defenderam o respeito da Constituição para organizar eleições livres. A ONU, por sua vez, pediu "moderação" a todas as partes envolvidas.

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