Golpistas em Honduras abrem chance de volta de Zelaya

Por Juana Casas TEGUCIGALPA (Reuters) - O governo interino de Honduras, que assumiu após o golpe de Estado, se mostrou aberto pela primeira vez nesta quarta-feira a considerar o retorno ao poder do presidente deposto Manuel Zelaya, ponto principal de um proposta do mediador Oscar Arias para saída da crise.

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O plano proposto por Arias, mediador da pior crise na América Central nas últimas duas décadas, propõe reempossar Zelaya em 24 de julho, formar um governo de unidade nacional até o final de seu mandato em janeiro e formar uma comissão de verificação que monitore o cumprimento do acordo.

"Não há muito mais para discutir. Este é um acordo equilibrado, moderado. A alternativa anterior a este acordo era a restituição incondicional do presidente Zelaya", disse o presidente costarriquenho e Premio Nobel da Paz após ler o projeto.

O delegado do governo interino liderado por Roberto Micheletti disse que a proposta será apresentada aos poderes executivo, legislativo e judiciário para estudo e se mostrou disposto a continuar dialogando, embora um representante de Zelaya tenha considerado o acordo com um fracasso.

"Hoje mesmo será apresentado, se possível, aos três poderes do Estado", disse o delegado Mauricio Villeda.

Mais cedo, em Tegucigalpa, vestidos de branco, milhares de simpatizantes do governo interino, instalado depois do golpe militar de 28 de junho, fizeram uma manifestação pacífica. Eles levavam cartazes pedindo "Paz" e chamando Zelaya de traidor.

"Não rejeitamos só Zelaya, rejeitamos também o abuso de poder que ele planejava", disse a professora de história Dumia Tomé, 39 anos. "Não vamos permitir que ele volte."

Nos arredores da capital, cerca de 500 seguidores de Zelaya fizeram uma outra manifestação, pedindo sua volta.

Zelaya foi mandado para o exílio, de pijama, depois que o Congresso e a Suprema Corte o acusaram de violar a Constituição ao tentar uma manobra para permitir sua reeleição.

A comunidade internacional defende a restauração do mandato dele, mas o presidente interino, Roberto Micheletti, rejeita terminantemente a volta de Zelaya, conforme propôs o mediador Arias.

A crise é vista como um teste diplomático para o presidente dos EUA, Barack Obama, que busca melhorar suas relações com a América Latina. Washington já condenou o golpe, cortou 16,5 milhões de dólares em ajuda militar e ameaça congelar a ajuda econômica.

Um porta-voz do Departamento de Estado disse que a secretária Hillary Clinton deixou claro ao governo interino que é preciso "chegar a um acordo com o presidente Zelaya e seus representantes".

Um assessor parlamentar norte-americano que manteve contato com o governo interino disse que os dirigentes golpistas parecem estar ficando mais pragmáticos. Uma das principais ideias é criar um governo de unidade que inclua Zelaya, Micheletti e o presidente da Suprema Corte.

Zelaya tem pedido a Obama que imponha sanções rígidas contra o governo, o que no entanto poderia afetar gravemente a economia hondurenha, que depende das exportações de café e produtos têxteis, além das remessas de emigrantes.

Em 2008, a ajuda internacional representou 10 por cento do orçamento do governo, e neste ano deve chegar a 20 por cento, segundo o analista Heather Berkman, da consultoria Eurasia Group. A estimativa para este ano é de uma contração de 2 por cento do PIB.

(Reportagem de Simon Gardner, Gustavo Palencia, Esteban Israel e Sean Mattson em Tegucigalpa, Susan Cornwell e Tim Gaynor em Washington, e Mica Rosenberg na Cidade do México)

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