Giuliano Ferrara, ex-dirigente comunista que passou para a direita e ex-ministro de Silvio Berlusconi, é chamado de ateu devoto na campanha eleitoral italiana, com uma chapa própria contra o aborto na linha dos neocon (neoconservadores) que dominam a Igreja Católica.

Ferrara, de 56 anos, é diretor do jornal Il Foglio, e irá concorrer às eleições legislativas destes 13 e 14 de abril com a chapa "Aborto? Não, obrigado".

O dirigente, que propõe uma moratória mundial na interrupção voluntária da gravidez, tornou-se alvo das críticas de mulheres que defendem a Lei 194 que legalizou há 30 anos o aborto na Itália.

O aborto "é a doença mortal de nossa sociedade, a peste de nosso tempo", costuma a dizer Ferrara constantemente.

Acima do peso, com uma grande barba e muitas vezes considerado politicamente incorreto, Ferrara, que se declara não-católico e fiel a um Deus pessoal, tornou-se símbolo mundial da causa contra o aborto.

Como a escritora e jornalista Orianna Fallaci, Ferrara defende os valores cristãos como fundamento da cultura ocidental, em perigo, segundo ele, pela ameaça conjunta do relativismo cultural e do fundamentalismo mulçumano.

"Foram realizados no mundo cerca de 1 bilhão de abortos nos últimos 30 anos. Um massacre de inocentes", afirma.

Ferrara pretende, por exemplo, acrescentar na Declaração dos Direitos Humanos, na frase "todo indivíduo tem direito à vida", a seqüência "desde a concepção até a morte natural". Neste campo, ele possui o apoio incondicional da Igreja Católica, que batalha a favor da defesa da vida desde o embrião.

Apesar de não contar com o apoio formal da Igreja para sua polêmica chapa, sua devoção ao Papa Bento XVI é notável e, como o jornalista Magdi Allam, convertido ao catolicismo recentemente, faz parte da nova onda conservadora liderada pelos "neocon".

"É culto e inteligente, e foi sempre um sectário e um extremista. Rompeu no início dos anos 80 com o Partido Comunista por considerá-lo demasiado de esquerda. Não troca de opinião, é sempre o mesmo", afirma à AFP Valetino Parlato, fundador do jornal de esquerda Il Manifesto.

Filho de dois prestigiados intelectuais e dirigentes do outrora Partido Comunista Italiano, Ferrara afirma não querer retirar a lei que regulamenta o aborto, e sim gerar o debate, sacudir consciências.

"Ele captou o desespero nacional ao contrário dos candidatos oficiais, possui argumentos e sabe falar sobre os medos dos italianos: o futuro da Europa, a perda da identidade nacional, a imigração", escreveu nesta semana o jornal americano The New York Times, que o classifica como o "único candidato interessante" da "indecifrável" política italiana.

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