Manesh Shrestha Katmandu, 26 jun (EFE).- O octogenário primeiro-ministro do Nepal, Girija Prasad Koirala, que abriu caminho hoje para a formação de um novo Governo ao apresentar sua renúncia, é o principal patrocinador do processo de paz no país e uma de suas mais destacadas figuras políticas.

Nascido em uma família de fazendeiros, Koirala assumiu a chefia do Governo nepalês em quatro ocasiões (1991-1994, 1998-1999, 2000-2001 e 2006-2008), cargo que, no passado, também foi ocupado por seus irmãos Matrika Prasad e Bisheshwar Prasad.

No entanto, o líder do Partido do Congresso Nepalês (NCP) não conseguiu reeditar sua vitória nas eleições legislativas de abril, nas quais o Partido Comunista do Nepal-Maoísta (CPN-M) foi a legenda mais votada, enquanto seu partido ficou em segundo lugar, com 110 das 601 cadeiras da Assembléia Constituinte.

Político astuto e ambicioso, embora chamado de autoritário por seus adversários, Koirala ganhou as eleições e chegou pela primeira vez à chefia do Governo após a restauração da democracia no Nepal, em 1991.

Foi neste momento que a guerrilha maoísta, então a terceira força política do país, abandonou a via parlamentar diante da recusa de Koirala em dar ouvidos à oposição e optou pela luta armada.

Três anos depois, Koirala dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições quando seu partido derrubou uma lei do Governo no Parlamento.

Koirala voltou a se tornar primeiro-ministro em 1998 e em 2000, mas ficou apenas um ano no cargo nas duas ocasiões, em uma década marcada por sua rivalidade com o ex-primeiro-ministro e membro do NCP, Krishna Prasad Bhattarai.

Em 2002, o mal-estar interno no NCP terminou com a cisão de uma facção liderada por Koirala, o Partido do Congresso Nepalês-Democrático.

Koirala protagonizou o cisma depois de o então primeiro-ministro, Sher Bahadur Deuba, que pertencia a seu partido, prolongar o Estado de exceção no país para derrotar a guerrilha maoísta.

O Parlamento foi dissolvido um ano mais tarde para a realização de eleições que não aconteceram por causa do auge da insurgência maoísta.

Desde então, Koirala dedicou todos os seus esforços para restabelecer o Parlamento do Nepal.

Líder indiscutível das forças democráticas do país, Koirala abriu o caminho para o processo de paz no Nepal e conseguiu trazer de novo a guerrilha maoísta para a via política.

Suas conversas com os maoístas terminaram em 2005 com a assinatura de um acordo de 12 pontos entre os principais partidos políticos do país, entre eles a antiga guerrilha, para eleger uma Assembléia Constituinte que decidisse o futuro da Monarquia.

Em abril de 2006, uma revolta popular derrubou o rei Gyanendra Bir Bikram Shah Dev, relegado a um papel apenas simbólico, já que Koirala se tornou em primeiro-ministro e, mais tarde, em chefe de Governo.

Em novembro do mesmo ano, os maoístas e o Governo selaram um acordo de paz e se comprometeram a realizar o pleito para a Assembléia Constituinte, no qual o CPN-M venceu ao conseguir eleger 220 parlamentares (pouco mais de um terço do total).

Tido pelo primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, como o líder mais destacado do Sul da Ásia, Koirala dedicou sua atividade política, de mais de 50 anos, à luta pela democracia e ajudou a colocar o Nepal no caminho da paz.

Koirala, fumante contumaz, deixou o tabaco após a revolta popular de abril de 2006, momento a partir do qual se submeteu a sessões de oxigenoterapia (administração de oxigênio).

Apesar de ainda ser preciso construir o novo modelo de Estado, Koirala entrará para a história como o líder nepalês que comandou a proclamação da República, em 28 de maio, medida que pôs fim a 240 anos de Monarquia. EFE ms/wr/fal

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