Gil e presidente do Instituto Ethos debatem reconciliação social em fórum

Teresa Bouza. Washington, 19 mar (EFE).- O alcance de uma maior harmonia social na América Latina passa pela redução da desigualdade na região, concluíram hoje vários dos participantes do Fórum de Reconciliação, que acontece em Washington e hoje teve como convidados o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil e o presidente do Instituto Ethos, Oded Grajew.

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Grajew, ex-assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e cuja entidade tenta promover a responsabilidade social no mundo empresarial, disse que um dos grandes desafios da América Latina é a reconciliação econômica da sociedade.

"Se não enfrentarmos o problema da desigualdade de uma forma profunda não vejo nenhuma possibilidade de reconciliação na América Latina", afirmou.

O empresário acrescentou que a maioria dos políticos da região representa o sistema econômico dominante, algo que, explicou, tem a ver com o fato de "os pobres não fazerem contribuições para as campanhas políticas".

Grajew, também um dos idealizadores do Fórum Social Mundial, assegurou que, no Brasil, grande parte do dinheiro que financia as campanhas é sujo, o que significa que "organizações ilegais têm grande poder político".

"Temos que enfrentar a grande influência do poder econômico em nosso sistema político", acrescentou.

"Podemos ter discursos maravilhosos, mas até que não regulemos isso não haverá reconciliação social", afirmou.

Os debates desta quinta-feira também contaram com a presença do cantor Gilberto Gil, que foi preso e posteriormente se exilou durante a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1969.

Gil disse que essa experiência tanto lhe permitiu ver como as forças do bem e do mal operam na sociedade, como lhe deu a força necessária para solucionar os problemas "de forma pacífica". "Foi uma experiência muito valiosa", concluiu.

O Fórum de Reconciliação, que termina amanhã e está acontecendo em instalações do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), busca analisar as complexas dinâmicas sociais para o perdão e o arrependimento após conflitos traumáticos em países.

O evento, que conta com a participação de políticos, jornalistas, ativistas, artistas e vítimas de regimes repressivos, começou na noite de ontem, com um discurso do arcebispo sul-africano e Prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu.

Hoje, o primeiro-ministro peruano, Yehude Simon, foi um dos participantes de um painel sobre os processos de reconciliação na América Latina após a longa história de divisões étnicas e sociais que desencadearam guerras civis, regimes autoritários e outras formas de violência na região.

Simon frisou que, "enquanto estas diferenças sociais tão marcantes e evidentes continuarem", não haverá tranquilidade na América Latina.

O premiê disse ainda que "a violência é produto da pobreza, não justificada muitas vezes, mas que é produto da pobreza".

Além disso, declarou que a classe empresarial precisa começar a entender que "sua própria sobrevivência na América Latina e no Peru depende de atender à maioria da população".

Por outro lado, lamentou a longa história de divisões sociais do Peru, que, segundo disse, se remonta à época dos incas, e mencionou que o país tem agora um programa de reconciliação nacional que passa pela construção daquilo que definiu como uma "economia solidária".

Organizado pela fundação Americas Business Council, um centro criado pelo presidente da "Televisa", Emilio Azcárraga, o Fórum de Reconciliação surge com a premissa de que a reconciliação é um processo "difícil, longo e trabalhoso".

Mesmo assim, os organizadores destacam que casos como o da África do Sul revelam o muito que as instituições podem fazer para facilitar e promover a reconciliação.

A conferência termina amanhã com a participação de outras personalidades, entre elas o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachov. EFE tb/sc

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