Benefício de cerca de R$ 5,5 mil por cada criança nascida no país será suspenso depois do dia 31 de dezembro

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Algumas gestantes espanholas estão tentando encontrar maneiras de dar à luz antes do réveillon para receber o benefício conhecido como cheque-bebê, uma ajuda de 2,5 mil euros (cerca de R$ 5,5 mil) por cada criança nascida no país e que vai ser suspensa depois do dia 31 de dezembro.

A medida, que entrou em vigor em 2007 com o objetivo de aumentar a taxa de natalidade na Espanha, será suspensa após a aprovação de um pacote anticrise.

Segundo dados da Associação Espanhola de Parteiras, a procura por partos nos últimos dias de 2010 aumentou em média 35% em relação ao mesmo período do ano passado. Hoje, de acordo com a associação, há cerca de 44 mil gestantes registradas para dar à luz entre 25 de dezembro e 6 de janeiro nos hospitais públicos e privados do país.

“Temos recebido muitas consultas de mães em situações delicadas”, disse à BBC Brasil a presidente da Associação Espanhola de Parteiras, Maria de Los Ángeles Rodríguez.

“Primeiro dizem que notam que estão com secreção, que acham que suas barrigas estão muito baixas e pedem para adiantar o parto. Depois de um tempo admitem que gostariam de dar à luz antes porque precisam do dinheiro, que os maridos estão desempregados, enfim, há dramas por trás disso tudo”, contou. “Nós aconselhamos que não convém arriscar um tratamento de indução de parto ou uma cesariana desnecessária porque os 2,5 mil euros não compensam o perigo. Um parto fora de hora multiplica por sete o risco de morte prematura”, explicou.

Clínicas particulares

As gestantes carentes, entretanto, não são as únicas apressadas pela crise. De acordo com a Sociedade Espanhola de Ginecologia e Obstetrícia (SEGO), a maior procura por partos adiantados tem sido nas clínicas particulares.

O presidente da SEGO, José Manuel Bajo Arenas, afirmou à BBC Brasil que “desde que não haja contraindicação médica, é possível dar à luz antes do previsto a partir da 38ª semana de gestação”. "O hábito é muito frequente entre famílias com mais recursos econômicos, que optam por escolher datas e evitar feriados prolongados como a Semana Santa."

Para Arenas, mulheres que têm seus bebês em clínicas particulares acabam tendo vantagem sobre as que mais precisam do cheque-bebê, porque estas dificilmente conseguirão adiantar seus partos em hospitais públicos.

Uma das maiores maternidades de Madri, a Clínica Quirón, já criou um sistema especial de fim de ano com instruções de avaliação para evitar o adiantamento desnecessário de partos. O hospital anunciou este programa depois do aumento de consultas e pedidos para aplicação da manobra de Hamilton, um procedimento de obstetrícia para separar as membranas e induzir o parto de forma natural.

Custos

O cheque-bebê custou ao orçamento público espanhol cerca de R$ 6,5 bilhões em três anos.
Pelos dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2006, antes da entrada em vigor da lei, houve 10,37 nascimentos por cada mil habitantes. No ano seguinte ao cheque-bebê, a média subiu para 10,45 mil por mil habitantes, sendo que uma em cada cinco gestantes que deram à luz em 2008 era imigrante.

O presidente do Instituto de Política Familiar, Eduardo Hertfelder, disse à BBC Brasil que “ninguém escolhe ter um filho por um cheque”, mas apesar disso, ele acha que a ajuda é necessária.

“A subvenção é um incentivo que não resolve a vida, mas em um período crítico é necessária e o governo nos abandona na hora mais inoportuna.”

Nos sites espanhóis sobre gestantes e bebês, são inúmeros os conselhos de técnicas alternativas que supostamente adiantariam os partos. Propostas como comer chocolate e aumentar o ritmo das relações sexuais para favorecer a dilatação têm aparecido em fóruns online.

Médicos e parteiras, no entanto, advertem que um parto provocado antes de que o bebê esteja preparado para nascer pode causar problemas neurológicos, cerebrais, respiratórios e digestivos.

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