Geórgia anuncia fim de hostilidades, mas Rússia não está convencida

O Ministério de Assuntos Exteriores da Geórgia entregou à Embaixada da Rússia uma nota na qual anuncia o fim, a partir deste domingo, das operações militares, mas Moscou não está convencido disso e afirma que as ações prosseguem na região separatista georgiana da Ossétia do Sul. As autoridades russas disseram que o número de mortos no combates que começaram na quinta-feira chega a 2.000. Na sexta-feira, a Geórgia disse haver até 300 pessoas mortas, a maioria civis.

Redação com agências |


"A Geórgia está disposta a iniciar imediatamente negociações com a Federação da Rússia sobre o cessar-fogo e o fim das operações militares", indica o documento, que quase imediatamente a diplomacia russa negou ter recebido "por canais oficiais".

No entanto, a parte georgiana precisou que a nota foi entregue ao cônsul russo na Geórgia, Alexander Smaga, por ordem direta do presidente georgiano, Mikhail Saakashvili.

Pouco depois, no entanto, admitiu que "tal nota efetivamente existe", mas a parte georgiana não parou as operações militares na Ossétia do Sul, e "suas tropas continuam disparando", disse um porta-voz do Ministério de Exteriores russo à agência "Interfax".

O documento afirma que, a partir das 5h local, a Geórgia cessou o fogo, mas o Ministério de Exteriores russo afirmou que "dispõe de informação de que os tiroteios continuam e as tropas georgianas não se retiraram plenamente".

Embora tenha precisado que os tiroteios "têm caráter esporádico e local", chegaram a ser usadas "armas pesadas, como morteiros", diz o documento.

Em sua nota, a parte georgiana assinala que criou um corredor de segurança para a retirada da população e os feridos da zona de combates e que também recuou de ali suas tropas.

A situação parece repetir a proposta de cessar-fogo imediato feita ontem por Saakashvili várias vezes e sobre a qual repercutiram todos os canais de televisão e agências locais e internacionais, mas que nem a Presidência nem os Ministérios de Exteriores e da Defesada Rússia chegaram a receber "por canais oficiais".

Esta manhã, as tropas georgianas abandonaram Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul e que tinham conquistado e retido durante mais de um dia, frente aos ataques de forças russas muito superiores.

As forças georgianas ocupam posições ao redor de Tskhinvali, mas, devido à arrasadora superioridade russa, seus carros de combate não demorariam a percorrer as centenas quilômetros que separam a cidade da capital georgiana, Tbilisi.

Unidades navais russas afundaram neste domingo uma lancha georgiana lançadora de mísseis que, segundo o comando da Rússia, tentou atacar um grupo de seus navios.

"As lanchas de mísseis georgianas em duas ocasiões tentaram atacar hoje os navios de guerra russos", explicou à agência oficial russa "Itar-Tass" um porta-voz oficial da Marinha da Rússia.

Os navios russos responderam abrindo fogo e como resultado "uma das lanchas que atacavam foi afundada", afirmou.

O subchefe do Estado-Maior da Rússia, general Anatoli Nagovitsin, assegurou que a frota não participa das hostilidades e também não mantém um bloqueio naval à Geórgia.

Para a parte georgiana, no entanto, a mera presença de navios russos frente às costas da separatista Abkházia já é uma violação de suas águas territoriais no Mar Negro.

Condições

A Chancelaria russa condicionou o fim das hostilidades à retirada das tropas georgianas e à renúncia ao emprego da força contra os regimes separatistas pró-russos.

"As condições do presidente (Dmitri Medvedev) são a retirada das tropas georgianas (...) e o compromisso da Geórgia, por escrito, de não empregar a força na Ossétia do Sul", declarou o vice-ministro de Assuntos Exteriores russo, Grigory Karasi.

Medvedev expôs estas condições em uma conversa telefônica com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, um dos líderes ocidentais que tentam mediar o conflito.

Karasin afirmou que a Geórgia deve recuar suas tropas à "linha de separação acertada em 1992 nos acordos de Dagomís", nos quais Moscou e Tbilisi acordaram os princípios de regra do conflito armado anterior entre Geórgia e sua região separatista.

Além disso, Tbilisi teria de assinar um acordo vinculativo de renúncia ao emprego da força na Ossétia do Sul e na Abkházia, a outra região separatista georgiana, disse Karasin.

No primeiro contato direto entre os Governos, o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, reiterou as exigências de retirada das tropas à chanceler georgiana, Eka Tkelashvili, segundo as agências russas.

Em Tbilisi, Aleksandr Lomaya, secretário do Conselho Nacional de Segurança, denunciou o que considera "o aumento da agressão por parte da Rússia".

"A Rússia enviou (à Ossétia do Sul) dezenas de carros de combate, artilharia e até foguetes táticos, e grande quantidade de infantaria", afirmou Lomaya.

Moscou reitera que enviou suas tropas à região georgiana em uma operação de "imposição da paz" e para defender as forças de paz russas desdobradas na Ossétia do Sul, a cujos habitantes a Rússia concedeu sua cidadania.

Karasin disse que as conseqüências da ofensiva do Exército georgiano na Ossétia do Sul são "catastróficas", ao deixar mais de dois mil mortos e 30 mil refugiados.

"A Rússia luta para que na Ossétia do Sul e na Abkházia, o povo possa viver em paz, sem temer bombardeios noturnos", e para "garantir a tranqüilidade ao sul das fronteiras russas", afirmou.

Intenções

Em uma entrevista ao jornal alemão "Rhein-Zeitung", que será publicada nesta segunda-feira e foi antecipada pela publicação neste domingo, o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, afirmou que a Rússia quer eliminar a Geórgia e planeja invadir todo o país.

"O ministro de Exteriores russo, Serguei Lavrov, expressou a representantes diplomáticos que querem eliminar a Geórgia", afirma Saakashvili na entrevista. "Os russos precisam do controle das rotas energéticas da Ásia Central e do mar Cáspio".

Serguei Lavrov desmentiu neste domingo as acusações americanas de que seu país esteja tentando derrubar o presidente pró-ocidental georgiano, Mikhail Saakashvili.

Lavrov avaliou que a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, "interpretou mal" suas afirmações sobre o presidente georgiano, durante um telefonema, em uma nota que a assessoria de imprensa do Kremlin transmitiu à AFP.

No domingo, o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Zalmay Khalilzad, acusou Moscou de querer derrubar o regime georgiano, por intermédio do conflito entre Geórgia e Rússia pela região separatista da Ossétia do Sul.

Khalilzad disse que seu colega russo, Vitali Churkin, citou comentários de Lavrov, sugerindo que o presidente georgiano "deveria partir", na conversa com Rice.

Para o embaixador americano na ONU, isso é "completamente inaceitável e supera os limites".

O encarregado dos assuntos russos nos EUA, Alexandre Darchiev, declarou neste domingo à CNN que a Rússia não tem intenção de invadir a Geórgia, insistindo sobre a responsabilidade deste país no conflito.

"Não temos em hipótese alguma a intenção de invadir a Geórgia", declarou Darchiev, acrescentando: "nosso objetivo é forçar os dirigentes georgianos à paz".

Para Darchiev, o presidente georgiano, Mikhail Saakachvili, deve ser considerado "responsável do ataque bárbaro e desleal contra os civis inocentes da Ossétia do Sul, da agressão contra a Ossétia do Sul".

Refugiados

A porta-voz da Cruz Vermelha Internacional (CICR), Maia Kardava, afirmou neste domingo que aproximadamente 40.000 pessoas foram obrigadas a deixar suas casas em razão do conflito na Geórgia.

Citando uma avaliação russa do número de pessoas que deixaram a Ossétia do Sul, república separatista da Geórgia, a porta-voz afirmou que "o número de 30.000 parece o mais certo", acrescentando que no interior da Geórgia há mais 10.000 pessoas deslocadas, de acordo com as primeiras estimativas.

Com informações da EFE, da Reuters e da AFP

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