Géologos encontram poço de magma no Havaí

Uma empresa que perfurava um vulcão no Havaí em busca de fontes de energia geotérmica se deparou com uma câmara de magma ativo, criando a oportunidade única de se estudar de perto os processos vulcânicos que levaram à formação dos continentes terrestres. A rocha derretida ainda subiu vários metros pelo buraco da perfuração antes de se solidificar, tornando-a perfeitamente segura para ser estudada.

BBC Brasil |

O especialista em magma Bruce Marsh, da John Hopkins University, afirma que isso permitirá aos cientistas observar diretamente como se formam os granitos.

"Isso é sem precedentes; é a primeira vez que foi encontrado magma em seu habitat natural", disse o professor à BBC.

"Antes, tudo o que tínhamos era lava em circulação, mas ela ocorre já no fim da vida da lava, quando ela está próxima à superfície, já sem gás. Não é seu habitat natural."
"É a diferença entre olhar ossos de dinossauro em um museu e ver um dinossauro real, vivo, pastando no campo."
A descoberta foi anunciada nesta semana, no encontro de outono da American Geophysical Union, em San Francisco.

Em controle
Esta não é a primeira vez que perfuradores encontram magma, mas acredita-se que a profundidade e localização sejam únicos.

A perfuração exploratória estava sendo realizada na região leste da maior ilha do arquipélago do Havaí, nas camadas de lava basáltica formadas pelo vulcão Kilauea.

A idéia era encontrar vapor subterrâneo para mover turbinas na superfície e gerar eletricidade. A empresa por trás da perfuração, a Puna Geothermal Venture, realiza operações deste tipo na área há 15 anos.

Os perfuradores ficaram surpresos com a descoberta, não apenas por encontrar a câmara de magma, mas também por encontrar uma fonte de calor tão grande e tão próxima, a apenas 2,5 km de profundidade.

"É mais quente que o inferno; a temperatura é de mais de 1000 ºC", disse Marsh.

Bill Teplow, consultor de geologia junto a US Geothermal Inc, que supervisionou a perfuração, ressaltou que não há risco de explosão ou erupção do vulcão no local.

"O magma foi facilmente controlado dentro do cano de perfuração por conta de sua natureza altamente viscosa. Ele chegou a subir até quase 10 metros dentro do cano, mas o líquido de perfuração frio fez com que o magma se solidificasse e parasse de subir", disse Teplow.

"Em nenhum momento estivemos a ponto de perder o controle da perfuração."
A descoberta foi feita em 2005, mas só agora os pesquisadores estão confiantes o suficiente sobre seu trabalho para discuti-lo publicamente.

Os cientistas não sabem qual o tamanho da câmara, mas alguns testes iniciais sugerem que ela pode ter sido criada pelas atividades do vulcão Kilaue nos anos 50, ou até nos anos 20.

Laboratório perfeito
Segundo o professor Marsh, a câmara está controlada e, aos poucos, está esfriando. A consistência do magma é como a de um xarope esfriado, disse ele.

Espera-se que o local da perfuração seja agora transformado em um laboratório, com uma série de perfurações na câmara para melhor caracterizar as mudanças de cristalização que ocorrem nas rochas à medida que elas esfriam.

O magma é uma rocha do tipo dacito, tornando-o quimicamente diferente do basalto, que forma quase toda a massa das ilhas havaianas e do solo do oceano ao redor e que tem uma quantidade de sílica muito mais alta.

A composição química do dacito é parecida com a do centro granítico dos continentes. Segundo o professor Marsh, o material gerado dessa perfuração pode representar a primeira vez em que o processo de diferenciação dos tipos de rocha continentais é visto in situ.

Especialistas em geotérmica também ficaram fascinados com a descoberta. A câmara encontrada no Havaí é, de longe, a menos profunda e mais quente já encontrada em uma operação comercial.

Ela será estudada para saber se há lições que podem ser aplicadas em outros projetos de geração de energia elétrica no mundo.

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