O genoma não cumpriu ainda as promessas anunciadas de um século de ouro da medicina, mas a revolução ainda está no início e pode dar frutos, afirmam os especialistas, em um debate pelo aniversário iminente de 10 anos do primeiro rascunho do código genético humano.

No dia 26 de junho de 2000, duas equipes - uma pública e outra privada - empreenderam uma frenética corrida de milhões de dólares para ver quem seria a primeira a publicar um rascunho do DNA humano.

Desde então, investiram milhões de dólares na pesquisa.

Se trata de buscar novos medicamentos para combater o câncer, as doenças coronarianas e cerebrais, entre outras patologias para o ser humano.

Deve proporcionar os instrumentos para fazer diagnósticos confiáveis sobre a propensão de um indivíduo de desenvolver determinadas doenças e também encaminhar a ciência para tratamentos na medida certa para cada paciente.

Mas, à medida que o aniversário se aproxima, as opiniões sobre as conquistas durante a década apontam para o fato que os resultados ainda estão longe da revolução médica.

"Os resultados para a medicina clínica foram, de longe, modestos", admite Francis Collins, que dirigiu a pesquisa pública Projeto Genoma Humano (HGP), nesta semana na revista científica Nature.

"Foram desenvolvidos alguns medicamentos potentes para certos tipos de câncer; os testes genéticos podem prever se as pessoas que sofrem de câncer de mama precisam fazer quimioterapia; foram identificados os principais fatores de risco de degeneração macular (uma doença dos olhos) e se pode prever a resposta de mais de uma dezena de medicamentos".

"Mas é justo dizer que o Projeto Genoma Humano ainda não tem efeitos diretos no tratamento médico da maioria dos indivíduos", afirmou.

O biólogo e empresário americano Craig Venter, que também se lançou na aventura há 10 anos, pede paciência.

"A revolução do genoma acabou de começar", considera Venter.

O ponto positivo é que o custo do sequenciamento do genoma caiu de forma assombrosa entre 1999 e 2009.

O Projeto Genoma Humano (HGP) foi financiado com três bilhões de dólares, ou aproximadamente um dólar por cada par ou anel da escada genética, e demorou 10 anos para produzir o rascunho, que foi seguido por uma versão "polida" em 2003.

Hoje, as companhias californianas Illumina e Life Tchnologies dizem que podem fazer o mesmo trabalho em um dia por menos de 6.000 dólares, enquanto a rival Complete Genomics oferece o serviço supostamente por 5 mil dólares.

Esta queda dos custos permitiu que os cientistas decifrassem o DNA de toda uma gama de espécies não humanas: mais de 3.800 organismos, desde ratos até moscas das frutas, essenciais para as pesquisas em laboratório.

Na próxima década, destaca Venter, poderá ser feito o DNA do esperma, das células embrionárias, de celulas pré-tumorais e das células-tronco, para ver se são saudáveis ou propensas a doenças.

Mas a pergunta hoje em dia é: "por que demora tanto tempo para dar resultados?". A razão é que uma coisa é ter uma mina de dados, e outra é compreender seu significado.

E o significado acaba por ser muito mais complexo que o pensamento: o número de genes de um organismo não é automaticamente um sinal de sua complexidade, já que os genes e as proteínas que controlam podem desempenhar múltiplas funções.

Atualmente, nesta inundação de informações, faltam meios para manipular os dados com coerência e desbravar seu conteúdo.

"Agora que foi sequenciado quase todo o genoma humano, poucos compreendem como atuam realmente os genes", disse Monika Gisler e membros do ETH Zúrich, uma pesquisadora suíça e a universidade tecnológica, no jornal Arxiv.org.

"Sabe-se que levará décadas para explorar os frutos do HGP, através de um processo lento e árduo que aponta para desbravar a complexidade extraordinária do problema", acrescenta.

Uma aposta a longo prazo.

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