Gaza, um pesadelo que virou realidade

Alberto Masegosa. Gaza, 23 jan (EFE).- A Faixa de Gaza parecia hoje um cenário no qual o pior pesadelo se transformara na realidade; seis dias depois do cessar-fogo de Israel e Hamas, o território palestino oferecia uma imagem desoladora.

EFE |

Na primeira Sexta-Feira Santa muçulmana desde o fim dos ataques israelenses que deixaram mais 1.400 mortos e 5 mil feridos, poucas pessoas passavam pela Gaza capital, onde as ruas estavam quase desertas.

Não se viam forças de segurança do Hamas nem de outros grupos armados, e entre os poucos veículos, destacavam-se, por suas contínuas buzinas, os das agências de auxílio com a bandeira azul da ONU.

A eles, somavam-se as ambulâncias que se dirigiam ao Hospital Al Shifa, o maior da área urbana e abarrotado de pacientes.

Os edifícios bombardeados no centro da cidade eram do Hamas: entre outros, os da televisão A-Aqsa, a delegacia de Al-Abbas e os 16 ministérios do Governo islamita foram reduzidos a massas de pedras e cabos.

Uma escavadeira aplanava o terreno da rua Al Yala que antes era a casa onde foi localizado e morto o ministro do Interior do Hamas, Said Siyam, junto com um de seus irmãos, um de seus filhos e dois milicianos.

"Minha casa tremeu como um pudim e todos nós ficamos gelados, sem saber que fazer", é a lembrança que tem desse dia Shakir Mahmoud, que vive com a família a 300 metros do alvo do ataque, no bairro de Sheikh Raiduan.

A destruição no núcleo urbano mostra sinais de operação cirúrgica, mas na periferia adquire reflexos de ataque indiscriminado.

No leste, os muros da mesquita de Azzadik no bairro de Salam estavam crivados de tiros.

Um pouco mais em cima, também na rua Abe Radbo, as casas de três famílias s haviam transformado em massas de cimento.

As plantações em volta tinham sulcos dos buracos das bombas, que arrancaram muitas árvores frutíferas.

No bairro de Jebalia, no extremo oriental da cidade, o panorama é mais desolador.

Nada fica nessa área, a mais próxima à fronteira com Israel e onde os tanques arrasaram nas duas ultimas semanas de guerra o que na primeira havia resistido de pé aos contínuos bombardeios aéreos israelenses.

Restos de casas, fábricas, oficinas, hangares, lojas e cisternas se amontoavam junto a carcaças de caminhões e de maquinaria, e os cadáveres de cabeças de gado em avançado estado de decomposição.

Crianças e idosos em carros puxados por burros passavam entre os escombros na busca do que ainda pudesse ter alguma utilidade, e grupos de homens se reuniam em torno de fogueiras para se protegerem do frio.

"Isto é o resto da minha empresa", diz Taha Dellul, mostrando com o olhar um bloco de concreto numa estrutura metálica, sobre o qual compartilha sua perda com uma dúzia de ex-empregados.

"Era uma fábrica de elementos para a construção que nos dava o que viver", explica.

"Viemos aqui porque não sabemos outro lugar aonde ir", acrescenta Dellul, que só confia "na comunidade internacional".

"Não confio em Israel, nem no Hamas, nem no Fatah (o movimento nacionalista do presidente palestino, Mahmoud Abbas). Eles não fazem mais do que brigar entre eles e não quero nenhuma das ajudas que nos prometeram", afirma.

"Só confio na comunidade internacional", repete, como um mantra.

A 200 metros, três famílias montaram com toalhas, tapetes, paus e ferros um refúgio junto ao que foi sua casa.

"Uma noite recebi uma chamada pelo celular que me deixou perplexo. Alguém em árabe se identificou como militar israelense e disse que saíssemos porque iria bombardear nossas casas", diz com cara de incredulidade o patriarca de uma das famílias, Helmy Siyam.

"Nós fomos imediatamente e, horas depois, destruíram nossas casas", lembra, sem compreender como o Exército de Israel tinha seu número de telefone.

Pouco depois de concluir a reza do meio-dia na mesquita de Al Katiba - a mais popular da cidade-, o imã Ahmed Abdelaziz Abu Billel pediu aos crentes "paciência e plena confiança em Deus".

"Tende paciência e persevere no caminho do Profeta, porque se o fazemos, Deus nos ajudará", disse a autoridade religiosa desse templo, situado frente ao mar, onde no início da tarde a água e o céu se confundiam na linha de um horizonte cinza. EFE amg/jp

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