Gaza torce pelos palestinos nos Jogos Olímpicos de Pequim

Saud Abu Ramadan Gaza, 13 ago (EFE).- Em um café na Cidade de Gaza, um grupo de desempregados acompanha a modesta delegação da Autoridade Nacional Palestina (ANP) nos Jogos de Pequim, nos quais a população dos territórios ocupados não esperam ver nenhum compatriota ganhar uma medalha, mas apenas ver sua bandeira balançando junto com as demais.

EFE |

Televisões, rádios locais, internet... Qualquer mídia serve para se manter a par dos resultados dos dois corredores e dois nadadores que integram a equipe palestina na capital chinesa.

"Foi indescritível ver nossa delegação entre as de outros países neste evento esportivo mundial", disse Nemer Abu Shaaban, de 25 anos, sobre a participação dos palestinos na Olimpíada.

Para o jovem, foi especialmente emocionante ver pela TV a equipe palestina durante a cerimônia de abertura dos Jogos de Pequim, no último dia 8.

"Um senhor de idade quase chorou enquanto dizia 'Que lindo ver a bandeira palestina ser agitada no céu com as de outros países'", contou sobre a experiência.

Acompanhar os Jogos de Pequim tem, antes de tudo, a ver com um sentimento de orgulho nacional, unido a muitas horas de tempo livre em uma Gaza cercada por tropas israelenses desde que o Hamas tomou seu controle à força em junho do ano passado.

"Sei que nenhuma medalha será entregue (a palestinos) nesta Olimpíada, mas esperamos que eles atuem bem o suficiente", comentou Abu Shaaban, para quem a presença palestina em Pequim é prova de que o sonho de conseguir um Estado independente está perto de se tornar realidade.

Saba'a Yarrar, diretor de relações públicas do Comitê Olímpico Palestino, acredita que a participação palestina em Pequim representa uma afirmação diante de outros países, embora os atletas voltem sempre de mãos vazias.

"O esporte é o melhor mensageiro entre as nações. Nossa presença em Pequim melhorará nossas relações com outros países", disse Yarrar.

As considerações esportivas, no entanto, perdem um pouco de peso quando se sabe que os integrantes da delegação palestina não competiram para se classificar para a Olimpíada chinesa.

A Palestina, presente nos Jogos Olímpicos de verão desde 1996, concorre este ano com quatro atletas com pouca experiência.

O favorito das centenas de habitantes de Gaza, que acompanham toda notícia sobre o evento, é Nader al-Massri, um atleta original de Beit Hanoun, no sul da faixa territorial.

Zakia Nassar, que nada nos 50 metros livre, e Hamza Abdo e Gharid Ghrouf - os mais jovens, com 18 e 17 anos, respectivamente - completam a delegação palestina.

A mera participação dos quatro já é uma vitória, uma vez que, para competir em Pequim, eles conseguiram deixar para trás dificuldades econômicas e uma paisagem de muros, cercas, postos de controle militar e soldados israelenses.

Massri teve que esperar meses até Israel autorizar sua saída de Gaza, ao passo que Zakia Nassar sô pôde treinar duas vezes por semana, em uma piscina de 25 metros, porque Israel a impedia de ir para Nazaré.

Já Gharid Ghrouf treinou para os cem metros em uma pista de barro em Jericó, e Hamza Abdo nadou durante meses em uma piscina de 18 metros de comprimento protegida por grandes lonas de náilon que retinham o calor, mas também o cheiro de cloro.

São situações fruto da falta de orçamento da Autoridade Nacional Palestina (ANP), que não vê o esporte como uma prioridade, e das dificuldades para abandonar um território carente de aeroportos e cujas fronteiras são controladas por Israel.

Talvez por isso se torne tão excitante para os habitantes de Gaza - que costumam definir a faixa territorial como "uma prisão sem barras" - ver seus atletas correrem, nadarem e se movimentarem em liberdade, com o distante sonho de dar à Palestina a primeira medalha de sua história. EFE Sar/bm/sc

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