Agências de auxílio apontam que a frágil situação dos habitantes da Faixa de Gaza piorou ainda mais desde o início da ofensiva israelense na região, há pouco mais de uma semana. Nos últimos 18 meses, Israel tem imposto um bloqueio a Gaza que só permite a passagem de auxílio humanitário básico.

  • Saúde, energia e saneamento já estavam em situação crítica mesmo antes do início dos ataques contra o grupo palestino Hamas, mas as condições pioraram nas últimas semanas.

    A situação fez com que o governo israelense até mesmo mudasse seu discurso sobre as condições dos habitantes de Gaza.

    Até a primeira semana de ofensiva, Israel afirmava que "não havia crise humana" no território. Agora, o governo afirma estar trabalhando com organizações internacionais para solucionar os problemas.

    Segundo o governo israelense, o responsável pela crise humana na região é o Hamas, que também estaria "mantendo o povo como refém" ao promover ataques contra civis israelenses.

    Reuters
    Homem procura objetos em meio a escombros

    Nesta segunda-feira, o coordenador do auxílio da Organização das Nações Unidas (ONU) para o território palestino, Max Gaylard, descreveu a situação da população de Gaza como uma "crise humana".

    "Um grande número de pessoas, incluindo crianças, está passando fome e frio e não possui acesso a recursos médicos, eletricidade e água corrente. Além disso, eles estão muito assustados. Sob qualquer medida esta é uma crise humana", disse.

    A organização não-governamental Save the Children afirma que a região está sofrendo com uma "severa escassez de comida", mas Israel alega que os armazéns das agências internacionais estão cheios e afirma ter permitido que diversos caminhões com auxílio entrassem em Gaza desde o início da ofensiva.

    Cerca de 750 mil pessoas - a metade da população de Gaza - dependem de alimentos distribuídos pela Agência das Nações Unidas de Auxílio a Refugiados Palestinos no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês).

    No último mês de dezembro, a agência teve que suspender a distribuição de alimentos em várias ocasiões por causa da escassez de farinha depois dos repetidos bloqueios israelenses na fronteira.

    Nesta segunda-feira, a agência afirmou que tinha estoques de farinha para mais dois dias, enquanto outro carregamento era aguardado.

    A UNRWA, no entanto, afirma que apesar do auxílio que está sendo enviado com caminhões, os recursos necessários não podem ser entregues a menos que a passagem de Karni - fechada desde o início dos conflitos em terra - seja reaberta.

    Segundo a agência, os conflitos e o bloqueio militar israelense na principal estrada norte-sul da região está atrapalhando a distribuição de alimentos e dois de seus centros de distribuição tiveram que ser fechados no domingo.

    Outra agência, o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM), tem 3.800 toneladas de comida em Gaza, mas a maior parte está estocada em armazéns perto da passagem de Karni e permanece inacessível por causa dos conflitos.

    Segundo a agência, a maior parte do alimento está em armazéns do Ministério do Interior palestino, cujos funcionários estão com medo de voltar ao trabalho.

    De acordo com a ONU, 23 das 47 padarias de Gaza foram forçadas a fechar as portas por causa da escassez de gás de cozinha. Outras 14 padarias abrem apenas esporadicamente.

    Além disso, a destruição dos túneis usados para contrabando no sul da região - que eram usados tanto no transporte de armas como de outros produtos - comprometeu a circulação de outros itens alimentícios.

    Os preços de muitos alimentos subiram e, por causa do impacto econômico do bloqueio israelense e da falta de cédulas, muitos dos habitantes não têm dinheiro para comprar comida.

    Os hospitais de Gaza estão sob pressão extrema para atender os cerca de 2.500 feridos nos conflitos.

    Agentes de emergência estão lutando para conseguir chegar aos feridos e muitos deles, segundo informações, teriam morrido nas tentativas.

    O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) está tentando coordenar passagens seguras para este trabalho com os israelenses, mas, em muitos casos, isto não é possível ou é muito demorado.

    "Basicamente as pessoas morrem enquanto esperam", diz a porta-voz da organização, Sophie-Anne Bonefeld.

    A equipe de médicos do CICV, liderada por um cirurgião de guerra, esperou cerca de quatro dias até ter acesso a Gaza, enquanto médicos dos hospitais da região trabalham noite e dia.

    Suprimentos médicos estão entrando em Gaza por meio de caminhões que receberam permissão de Israel para cruzar a fronteira, mas as agências de auxílio afirmam que há dificuldades em enviar os recursos corretos para os lugares onde há necessidade.

    Outros recursos de necessidade urgente continuam, no entanto, indisponíveis. O CICV, por exemplo, está tentando transportar mil doses de vacina contra tétano através das fronteiras, já que, de acordo com informações, não há mais vacinas do tipo em Gaza.

    Cinco das 18 clínicas médicas da UNRWA tiveram que ser fechadas por causa dos conflitos.

    A ONU afirmou no domingo que todos os hospitais de Gaza ficaram 48 horas sem fornecimento de eletricidade.

    Eles dependem de geradores usados apenas como fontes complementares e que também estão sofrendo com falta de peças por causa do bloqueio.

    No maior hospital da Cidade de Gaza, o Al-Shifa, as vidas de 70 pacientes nas unidades de terapia intensiva dependem de geradores. Segundo a ONU, o hospital tem estoques de combustível suficiente para apenas mais três dias.

    A Organização das Nações Unidas afirma que 1 milhão de pessoas em Gaza está sem eletricidade. A única usina de energia da região, que atende a maior parte da Cidade de Gaza, parou de funcionar no dia 30 de dezembro por falta de óleo diesel.

    Um carregamento de 215 mil litros de diesel industrial foi enviado a Gaza no dia 5 de janeiro, o que é cerca de 10% do que a Suprema Corte colocou como o mínimo a ser mandado através das fronteiras semanalmente.

    Outros 100 mil litros de diesel convencional também foram enviados, mas na noite de segunda-feira o carregamento ficou preso no lado palestino porque os seguranças não permitiram a entrada dos trabalhadores, segundo a ONG israelense Gisha.

    A região também sofre com uma escassez severa de gás de cozinha. Segundo Israel, a única passagem pela qual o combustível pode ser transportado - Nahal Oz - foi fechada na primeira semana da ofensiva por "motivos de segurança".

    A ONU afirmou nesta segunda-feira que mais de 250 mil pessoas em Gaza não têm acesso a água corrente.

    Muitos dos poços de água em Gaza dependem de bombas movidas a eletricidade e que agora são acionadas por geradores, em um momento de escassez de combustível.

    Segundo o serviço de águas de Gaza, 48 dos 130 poços da região não estão funcionando por causa de falta de energia ou danos nos encanamentos, enquanto outros 45 funcionam apenas parcialmente.

    O CICV estima que meio milhão de pessoas na Cidade de Gaza ficará sem água dentro de 48 horas na medida em que o combustível das bombas acaba.

    O serviço de águas de Gaza também afirmou no domingo que esgoto está vazando em áreas habitadas, em plantações e no mar, enquanto 37 estações de bombeamento de água usada tiveram que fechar por causa da falta de energia.

    A menos que diesel seja enviado, o resto das bombas deve parar em três ou quarto dias.

    Mas, mesmo que o diesel entre em Gaza, o transporte seguro para os locais onde é necessário é praticamente impossível por causa dos conflitos.

    As autoridades também temem que os bombardeios atinjam um grande reservatório de esgoto no norte da região, correndo o risco de inundar a área urbana de Beit Lahiya.

    Nahum Sirotsky, colunista do iG, comenta a situação em Gaza; veja o vídeo:


    Leia também

    Opinião


    Leia mais sobre: Faixa de Gaza

      Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.