Se por um lado a Faixa de Gaza é, há meio século, um verdadeiro pesadelo para Israel, para o Egito se tornou um complicado quebra-cabeças, já que o Cairo rejeita a possibilidade de voltar a assumir qualquer autoridade sobre o território palestino, controlado pelo Hamas desde 2007.

"O Egito não cairá na armadilha israelense", afirmou o presidente egípcio, Hosni Mubarak, nas primeiras horas da ofensiva do exército de Israel, há dez dias. Ao mesmo tempo, contudo, acusou o grupo radical islâmico Hamas de ter provocado a situação, ao continuar lançando foguetes contra o território israelense.

O Egito acha que Israel tem algum tipo de plano secreto, que consistiria em separar definitivamente Gaza da Cisjordânia - controlada pela Autoridade Palestina de Mahmud Abbas - e expulsar seu 1,5 milhão de habitantes para o território egípcio.

"O Egito é contra este plano", afirmou Mubarak, apesar da solidariedade que costuma demonstrar em relação à "causa" dos palestinos e ao sofrimento do povo de Gaza.

Diante das críticas por não ter aberto a passagem de Rafah para romper o bloqueio israelense a Gaza, o Egito alega que essa atitude serviria como justificativa para que Israel se liberasse da responsabilidade de abastecer o território palestino.

Os egípcios, no entanto, fecharam deliberadamente os olhos para a construção de centenas de túneis e passagens subterrâneas ao longo dos 14 quilômetros de sua fronteira com a Faixa de Gaza, que funcionam como um verdadeiro "cordão umbilical" entre o Egito e o minúsculo território, superpovoado e empobrecido.

Os laços entre esses dois lados são tão estreitos que é necessário olhar 50 anos para trás na história, marcada por vários conflitos entre Israel e seus vizinhos árabes, para compreendê-los.

Após a primeira dessas guerras, em 1948, quando tropas da Jordânia, Egito, Líbano, Síria e Iraque invadiram o recém-criado Estado judeu - que rechaçou o ataque -, a Faixa de Gaza, então com seus 180.000 refugiados, passou a ser administrada pelos egípcios.

O Egito, no entanto, não demonstrou em nenhum momento a intenção de anexar Gaza ao seu território ou conceder aos palestinos cidadania egípcia ou mesmo vistos de trabalho, acolhendo apenas jovens estudantes, como Yasser Arafat.

Ao contrário do que se pensava, o líder nacionalista egípcio Gamal Abdel Nasser - que chegou ao poder após um golpe de Estado em 1952 - teve na época muitas reservas em assumir o papel de "tutor" da turbulenta Faixa de Gaza.

Em várias ocasiões, o exército egípcio se viu obrigado a sufocar tiros de manifestações palestinas convocadas por líderes nacionalistas, limitando as inflitrações em território israelense.

Um episódio em especial provocou, segundo historiadores, uma mudança radical na política de Nasser: o bombardeio lançado por Israel em fevereiro de 1955 contra uma base egípcia em Gaza, que matou 36 soldados e dois civis.

Humilhado e incapaz de responder, o então presidente egípcio decidiu organizar, controlar e armar os fedayins (combatentes), que realizavam incursões em território israelense, provocando uma escalada de violência.

A guerra árabe-israelense dos Seis Dias, em junho de 1967, pôs fim à administração egípcia da Faixa de Gaza e abriu caminho para a ocupação israelense, que durou até 2005.

Após a retirada israelense, o Egito se viu novamente em situação difícil, negando-se a colocar a região novamente sob sua tutela, embora reconheça o papel chave que a fronteira com Gaza representa para sua segurança nacional.

Os egípcios, no entanto, não esperavam que o Hamas tomasse o poder dois anos depois, expulsando a Fatah de Abbas e provocando a ira dos israelenses, que decidiram então bloquear o território em represália.

Um estado "sob a influência da Síria e do Irã, com o risco de que o terrorismo se alastre para os Irmãos Muçulmanos egípcios, se tornou uma realidade inaceitável para o Cairo", disse à AFP Imad Gad, pesquisador do centro estratégico de Al Ahram.

"Para o Egito, está claro que o Hamas é influenciado e tem uma grande responsabilidade", destaca Gad, acrescentando que o maior medo do Cairo atualmente é que a operação israelense provoque uma afluência maciça de refugiados palestinos para seu território.

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