G20 tentará redefinir as regras do jogo das finanças mundiais

A cúpula do G20 dos países industrializados e emergentes em Washington acontecerá num contexto de contínuas perturbações no sistema financeiro e crescentes sinais de que a economia mundial avança para o que muitos temem seja uma recessão longa e duradoura.

AFP |

As maciças intervenções dos governos com bilhões de dólares para apoiar e resgatar os bancos e estimular a economia até agora fracassaram em frear a crise e os líderes políticos pedem que se faça mais.

Mas o que exatamente? O modelo de sistema financeiro moderno, de livre mercado, se globalizou, enquanto que a regulação e o controle permanecem em grande parte sob o controle nacional, algo que deve ser resolvido, segundo analistas.

Muitos países que participarão na reunião pediram uma regulação maior dos mercados, que assumiram investimentos cada vez mais arriscados ao se afastar dos controles oficiais desde os anos 80, quando buscavam uma forma de capitalismo mais pura e eficiente.

Este modelo está hoje em dia desacreditado e políticos, economistas e analistas promovem uma longa lista de eventuais soluções. Entre estas figuram:

- Os paraísos fiscais e novos tipos de operações financeiras, especialmente os fundos especulativos, devem ser regidos por um marco regulatório para que os complexos fluxos de capital e de investimento sejam mais transparentes.

Transparência significa um alto nível de informação sobre os negócios que estão sendo realizados, o capital que está sendo utilizado e o risco assumido.

- Os salários do setor financeiro e os bônus devem ser mais adequados para incentivar práticas conservadoras ao invés da tomada de riscos descontroladas que implicaram que os bancos americanos concedessem créditos a pessoas com mais dívida do que jamais poderiam pagar.

- As agências de classificação, que devem julgar e classificar os níveis de risco corporativo, mas fracassaram em emitir alertas quando a situação piorava, devem se ajustar as normas.

A lista de temas que a cúpula abordará é longa e difícil, e complica a tarefa de se chegar a um consenso.

"Por causa da inovação no setor financeiro, a regulação se viu atrasada de maneira consistente. Ao mesmo tempo, regulação demais só incentivará a indústria financeira a se mudar ainda mais para refúgios offshore", avaliou Gunther Capelle-Blancard, professor da Universidade Paris I.

No entanto, nem todos os governos buscam este objetivo e alguns querem manter tanta liberdade quanto for possível para que seus setores financeiros, já que um aumento da regulação pode elevar o custo desses serviços.

A maioria dos governos europeus, liderados pela França, assim como a China, quer uma mudança.

"Mas os Estados Unidos e provavelmente a Grã-Bretanha serão contrários a uma postura rígida com seus setores financeiros, que representam mais de 10% de seu Produto Interno Bruto (PIB)", afirmou Henry Sterdyniak, economista da OFCE, o centro de pesquisa econômica do Instituto de Ciências Políticas de Paris.

O anfitrião da cúpula, o presidente George W. Bush, provavelmente não assumirá compromissos que atem as mãos de seu sucessor democrata, Barack Obama, que não participará na cúpula.

"Com a crise econômica, idéias sobre a necessária complementariedade do mercado e do Estado e uma divisão mais equitativa da riqueza ganharam força", analisa Jezabel Couppey-Soubeyran, da Universidade Paris-I.

Potências econômicas emergentes como a China, Índia e Brasil, afirmam os analistas, querem que suas vozes sejam ouvidas na cúpula e nas novas ou modernizadas instituições mundiais que apliquem uma nova regulação.

O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, duas instituições-chave no fim da Segunda Guerra Mundial, devem ser reformadas para assegurar uma participação maior na pol'tica da nova economia mundial, segundo os especialistas.

Para enfrentar os problemas econômicos subjacentes, o G20 tentará coordenar ações e grandes esperanças repousam sobre os gigantes emergentes como a China.

"Temos que convencer os americanos de poupar mais e os chineses de poupar menos e gastar mais", resumiu Sterdyniak.

cac/cn/fp

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