Futuro de Gaza depende de acordo entre Hamas e Fatah, dizem analistas

Um ano após a tomada do poder na Faixa de Gaza pelo Hamas, analistas palestinos e israelenses ouvidos pela BBC Brasil se mostraram pessimistas quanto a uma possível solução de paz para a região em um futuro próximo. O território continua isolado - sua fronteira com Israel permanece fechada há meses -, as condições de vida seguem deterioradas, com falta de combustível e alimentos na ordem do dia, e as perspectivas de um entendimento entre o Hamas e o Fatah, as duas principais forças políticas palestinas, permanecem distantes.

BBC Brasil |

A grande vítima desta situação é a população de Gaza, que enfrenta, há um ano, o que ONGs chamaram de "implosão humanitária".

"Gaza está morrendo, se vê a tristeza no rosto das pessoas, não há esperança", afirma, à BBC Brasil, o jornalista e comentarista político palestino Hassan Jabar.

A luz no fim do túnel, pelo menos para Gaza, segundo analistas, estaria em um acordo entre os dois grupos palestinos.

"A única saída para Gaza seria se o Hamas e o Fatah concordassem em realizar eleições gerais. Vencendo esse pleito, o Fatah poderia negociar a abertura da fronteira com Israel", afirma Jabar, que reside em Gaza.

Há relatos de que representantes dos dois grupos estão negociando, com mediação do governo egípcio. Mas os relatos não chegam a animar analistas mais céticos.

"As enormes dificuldades, tanto em Gaza como na Cisjordânia (dominada pelo Fatah) estão aproximando esses dois adversários", disse à BBC Brasil Mahdi Abdul Hadi, Diretor da Sociedade Acadêmica Palestina para o Estudo de Relações Internacionais.

"Mesmo assim, as diferenças são enormes, não vejo grandes mudanças acontecendo", diz o analista, que mora em Jerusalém.

"Hoje não há acordo entre Hamas e o Fatah. No passado, mesmo quando havia um acordo, ele não conseguiu ser implementado. Por que agora seria diferente?", indaga.

Divisão
A crise que divide os palestinos começou em janeiro de 2006, quando o Hamas foi eleito para formar um governo.

A eleição levou a um boicote internacional de países e instituições que consideram o Hamas um grupo terrorista, que se recusa a reconhecer o Estado de Israel e a rejeitar o uso da violência como método para conseguir seus objetivos políticos.

Para tentar acabar com o boicote, o Hamas e o seu principal rival, o Fatah, que, pela primeira vez, tinha perdido o comando da política palestina depois de décadas, chegaram a concordar em formar um governo de unidade nacional.

O acordo não deu certo e o acirramento nas diferenças entre os grupos - o Fatah é mais moderado e reconhece o Estado de Israel, por exemplo - acabou culminando nos confrontos nas ruas de Gaza, que, há um ano, deixaram centenas de mortos em ambos os lados.

No dia 14 de junho de 2007, o Hamas assumia o controle total da Faixa de Gaza, depois de expulsar os homens do Fatah - e confinar o poder político do rival ao comando da Cisjordânia.

Poucas semanas depois, desenhou-se a situação que persiste até hoje na região: cansados de constantes ataques com foguetes disparados de Gaza contra alvos no sul do país, Israel fechou as fronteiras, impendindo a circulação de pessoas e mercadorias e provocando uma drástica deterioração das condições de vida no território palestino.

Israel
Em Israel, o bloqueio a Gaza causa divisões. Para uns, ela foi necessária por questões de segurança.

"Desde que o Hamas assumiu o controle, Gaza está sendo usada para agressões imorais e nenhum outro governo agiria diferente (do que Israel)", afirma o analista político israelense Gerald Steinberg, da Universidade Bar Ilan.

"A questão palestina não avançará enquanto os palestinos continuarem a se matar e ser governados por fanáticos", diz ele.

Para outros especialistas, entretanto, o bloqueio não consegue atingir um de seus principais objetivos, que seria causar o enfraquecimento do Hamas.

"Quanto mais forte a opressão, mais fortalecido o Hamas, que é visto como única forma de resistência", diz o analista israelense Jeff Helper, autor e professor da Universidade Ben Gurion.

Processo de Paz
Além de tentar reaproximar Hamas e Fatah, mediadores egípcios tentam negociar um cessar-fogo entre o Hamas e Israel. Esta semana o governo israelense decidiu adiar o início de uma grande operação militar em Gaza, favorecendo o trabalho diplomático.

Mesmo assim, o jornal israelense Haaretz citou um membro do alto escalão do governo do país dizendo que a administração acredita que "um conflito com Gaza é inevitável".

"Os palestinos não culpam o Hamas pelo bloqueio, mas sim Israel. Ao mesmo tempo, eles sabem que o Hamas fracassou em levar adiante nossa causa", afirma Jabar.

"Ao invés de estarmos negociando Jerusalém Oriental (que os palestinos querem que seja a capital de seu futuro Estado) e os assentamentos judeus na Cisjordânia, hoje estamos discutindo a obtenção de combustível e comida", diz ele.

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