Funeral de Terreblanche reúne milhares de radicais e eleva tensão racial na África do Sul

Milhares de ultradireitistas, muitos com uniformes paramilitares, e vários jornalistas se reuniram nesta sexta-feira na pequena cidade de Ventersdorp, no noroeste da África do Sul, para o funeral de Eugene Terreblanche, líder extremista defensor da supremacia branca.

iG São Paulo |

Enquanto o caixão era levado para a igreja local, os participantes cantavam o hino sul-africano da época do apartheid. Como o espaço era limitado, milhares de seguidores de Terreblanche tomavam as ruas da acanhada Ventersdorp. A antiga bandeira sul-africana e a bandeira do partido -- que lembra uma suástica nazista -- ondulavam sobre caminhonetes.


Seguidores de Terreblanche fazem saudação durante passagem do caixão de líder do AWB / AFP

A polícia foi mobilizada, e helicópteros sobrevoavam as ruas, onde poucos negros eram vistos. A igreja da cidade suspendeu suas restrições habituais ("só para brancos"), de modo a permitir o acesso de jornalistas negros.

O Movimento de Resistência Africâner (AWB, o partido de Terreblanche descartou represálias violentas, mas o clima era de militância inflamada entre alguns participantes do funeral.

"Estamos aqui hoje para declarar guerra e vingar a morte do nosso líder", disse um empresário de 46 anos, oriundo da província de Mpumalanga (nordeste), que não quis se identificar. "A maioria dos homens brancos entre 35 e 55 anos tem treinamento militar, e estamos preparados para usar as nossas habilidades", disse.


Radicais participam de funeral de Terreblanche / AP

Antes da cerimônia, os dirigentes do Movimento de Resistência Africâner (AWB), grupo de ideologia e simbolismo similar ao Nazismo fundado por Terreblanche em 1973, asseguraram que não farão ações violentas após a morte do líder.

Andre Visage, secretário-geral do AWB e que no domingo passado ameaçou vingar a morte de Terreblanche, disse à imprensa que seu grupo negociará pacificamente com o governo proteção. "Se não nos sentirmos satisfeitos com as negociações, retornaremos a nossa nação e veremos o que devemos fazer, mas a violência é um o último recurso", acrescentou.

Tensão racial

AP
Terreblanche, em 2005
Terreblanche, em 2005

Terreblanche, de 69 anos, estava politicamente marginalizado depois de ver frustrados os seus esforços para preservar o regime de segregação racial do apartheid, no começo da década de 1990. Seu assassinato, no entanto, expõe as divisões raciais que permanecem no país, 16 anos após o fim do regime da minoria branca.

"Achamos que foi um assassinato político, não um homicídio simples", disse André Visagie, secretário-geral do AWB, o partido de Terreblanche, em frente à fazenda dele, na localidade rural de Ventersdorp, 100 quilômetros a oeste de Johanesburgo.

O assassinato intensificou a sensação entre os seguidores do AWB -- uma ínfima minoria entre os brancos, que são 10% dos 48 milhões de sul-africanos -- de que eles estão sendo perseguidos pelo Congresso Nacional Africano (CNA), o partido no poder desde 1994.

No mês passado, o líder da juventude do CNA, Julius Malema, causou polêmica ao entoar um hino negro da época da luta contra o apartheid, no qual um dos versos diz "Mate o bôer" - termo que significa "fazendeiro" e alude aos descendentes dos colonizadores brancos. O hino está proibido pela Justiça, que considera que ele prega o ódio racial.

O CNA orientou Malema a evitar declarações polêmicas a propósito da morte de Terreblanche. Na sexta-feira, o CNA criticou Malema por causa de comentários feitos em uma entrevista coletiva na quinta-feira e por ter expulsado um jornalista britânico sob xingamentos. O partido disse que o militante será convocado para discutir o assunto.

Eugene Terreblanche

O líder de extrema direita sul-africano Eugene Terreblanche, de 69 anos, foi assassinado no último sábado em um ato aparentemente sem motivações políticas.

Terreblanche dedicou a vida à defesa da supremacia dos brancos e à manutenção do apartheid e seu grupo, o Movimento de Resistência Africâner (AWB), que se opôs com violência à transição pós-apartheid no começo dos anos 1990.

Segundo a polícia, o líder da ultradireita teria sido assassinado por dois empregados de uma fazenda após uma discussão pela falta de pagamento dos salários.

* Com EFE e Reuters

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