Fundador do Wikileaks defende publicação de documentos secretos

Para Julian Assange, trata-se apenas de "esclarecer a verdade" sobre os fatos ocorridos durante a Guerra do Iraque

EFE |

O fundador do Wikileaks, o australiano Julian Assange, defendeu hoje em Londres a publicação dos 391 mil documentos secretos sobre a Guerra do Iraque e disse que se trata apenas de "esclarecer a verdade" sobre os fatos ocorridos durante o conflito. Assange lembrou o ditado de que "a primeira vítima de uma guerra é a verdade" e ressaltou que os ataques contra a verdade começam antes de uma guerra, continuam durante o conflito armado e persistem, como ocorreu no caso do Iraque, até muito tempo depois. Cifrou em 109 mil os mortos, mais de 66 mil deles civis, em consequência da invasão anglo-americana do Iraque e destacou que até agora 15 mil deles eram desconhecidos.

Na entrevista coletiva, realizada em um hotel londrino, participaram dirigentes de outras organizações americanas e britânicas como o Center for Investigative Journalism, Public Interest Lawyers e a ONG Iraq Body Count. O representante da Iraq Body Count agradeceu o trabalho da imprensa, sem os quais, nada sobre o Iraque seria divulgado. Explicou que o Exército americano tinha um detalhado registro das mortes causadas por seus soldados e das quais estes testemunharam. "É um erro injustificável manter esses dados em sigilo, como fez Washington", comentou o diretor da ONG britânica. Os 15 mil civis mortos sobre os quais não se tinha notícia até agora equivalem a cinco vezes as vítimas do ataque terrorista de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas de Nova York, acrescentou.

AFP
O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, disse que os documentos mostram a "verdade" sobre a guerra no Iraque

Pela primeira vez foram divulgados os nomes das vítimas e "cada um deles conta uma história de sofrimento humano e de morte", ressaltou o representante de Iraq Body Count, segundo o qual "não poderá fechar-se o capítulo de nenhuma guerra até que se reconheça até a última vítima" e as "circunstâncias de sua morte". "Pedimos a todos e ao Governo americano que apóiem nosso trabalho", acrescentou após assinalar que 80% dos mortos no Iraque desde 2003 eram civis.

Investigação

O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a tortura, Manfred Nowak, exortou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a abrir uma investigação. "Há uma obrigação em investigar quando houver acusações confiáveis de que ocorreu tortura, e essas acusações são mais do que confiáveis, e isso é dever dos tribunais", afirmou.

Muitos dos 391.831 relatórios Sigact (abreviação de Significant Actions, ou ações significativas, em inglês) do Exército americano, aparentemente descrevem episódios de tortura de presos iraquianos por autoridades do Iraque. Em alguns deles, teriam sido usados choques elétricos, em outros furadeiras e há até relatos de execuções sumárias.

Os documentos indicam que autoridades americanas sabiam que estas práticas vinham acontecendo, mas preferiram não investigar os casos. Um dos memorandos mostra que militares americanos receberam um vídeo que aparentemente documentaria a execução de um prisioneiro iraquiano por soldados iraquianos.

Em outro caso, soldados americanos parecem suspeitar de que militares iraquianos teriam decepado dedos de um preso e usado ácido para queimá-lo.

Ordens superiores

O porta-voz do Pentágono Geoff Morrell disse à BBC que, caso abusos de tropas iraquianas fossem testemunhados ou relatados aos americanos, os militares eram instruídos a informar seus comandantes.

"E no nível apropriado, essa informação seria então dividida com as autoridades civis e militares iraquianas para que tomassem providências."

Os documentos revelam ainda diversos casos não relatados em que soldados americanos teriam matado civis em postos de controle e durante operações.

Em outro episódio, em julho de 2007, um helicóptero militar americano teria matado 26 iraquiano, metade do grupo seria civil, segundo o memorando.

Em outro caso, um helicóptero Apache abriu fogo contra dois homens, suspeitos de terem disparado morteiros contra uma base militar americana em fevereiro de 2007, mesmo após a rendição deles.

A tripulação da aeronave teria consultado um advogado sobre a validade da rendição e ao ser informados de que não era aceitável e que os homens eram "ainda alvos válidos", dispararam.

O mesmo helicóptero, identificado como "Crazyhorse 18" estaria envolvido em outro episódio, no qual dois jornalistas e duas crianças foram mortos.

Os documentos vazados pelo Wikileaks também dão a entender que o Exército da Guarda da Revolução Islâmica do Irã treinou e forneceu armas a insurgentes no Iraque.

*Com BBC

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG