Fujimori reaparece em julgamento após cirurgia

Rocío Otoya Lima, 11 jun (EFE).- O ex-presidente peruano Alberto Fujimori reapareceu hoje no julgamento por violação dos direitos humanos, suspenso há uma semana para que se submetesse a uma operação na qual foi extirpado um tumor cancerígeno na língua.

EFE |

O Instituto Médico Legal (IML) do Peru confirmou hoje o câncer que o ex-presidente possuía vários dias após o anúncio feito por sua filha, a congressista Keiko Fujimori.

"Na cirurgia realizada se encontrou um carcinoma epidermóide de 0,4 milímetros que foi extirpado junto a outras lesões que não são cancerígenas", disse à Agência Efe o doutor chefe do IML, Luis Bromley.

O relatório explica que a operação foi curativa, ou seja, que foram extirpados os focos de câncer, e que Fujimori, de 69 anos, deverá se submeter a exames médicos periódicos.

Com esta confirmação oficial é esclarecido o estado de saúde de Fujimori, que foi submetido a uma intervenção similar há onze anos, e permite a continuidade do julgamento iniciado em dezembro de 2007.

O ex-líder é acusado, como autor mediato ou intelectual, do assassinato de 25 pessoas em Barrios Altos (1991) e La Cantuta (1992), assim como pelos seqüestros do jornalista Gustavo Gorriti e do empresário Samuel Dyer, após o autogolpe de Estado de 1992.

A sessão de hoje durou só metade da jornada para "garantir o restabelecimento absoluto do acusado", segundo o presidente da Sala Penal Especial, César San Martín.

Os médicos do ex-governante recomendaram que ele não falasse mais do que quatro horas diárias. Sua recuperação total está prevista para três semanas.

Como o acusado já testemunhou no julgamento, no qual a Promotoria pede 30 anos de prisão, permite que Fujimori mantenha o silêncio recomendado por seus doutores.

Assim, o processado escutou o testemunho do ex-chefe do Serviço de Inteligência Nacional (SIN) Julio Salazar Monroe, condenado em abril a 35 anos de prisão pelo massacre de La Cantuta.

O ex-general reconheceu perante a Sala que duas verbas dos fundos do SIN "foram entregues por ordens do senhor presidente da República a Vladimiro Montesinos", que foi o braço direito de Fujimori e assessor presidencial.

Esta declaração motivou o advogado de Fujimori, César Nakazaki, a solicitar uma conversa privada com Salazar Monroe, também seu cliente, por aparentemente acusar com suas declarações o ex-chefe de Estado.

Ao ser perguntado pelo promotor Avelino Guillén se Montesinos dava ordens aos diretores de inteligência das Forças Armadas, o ex-chefe do SIN respondeu: "não me consta".

Disse, além disso, não lembrar se Montesinos ordenou a explosão de uma torre do Canal 13 de TV na região de Puno, apesar de Salazar ter reconhecido este fato em 2001.

Salazar Monroe, que em várias ocasiões se negou a responder a perguntas que -a seu parecer- enfraquecessem a segurança nacional, ressaltou que "havia casos" em que despachava diretamente com Fujimori sobre temas de inteligência.

Manifestou, além disso, que Montesinos era "um assessor da Alta Direção" e "não dava conta" de suas atividades, ao negar a existência de uma estrutura militar encoberta, em alusão ao Grupo Colina, responsável pelos massacres mais emblemáticos do regime fujimorista.

"Essa organização paralela nunca existiu", cotou o ex-general.

Ao término do testemunho de Salazar Monroe, a testemunha seguinte será Montesinos, a presença mais esperada do mega-processo.

Caso se concretize, será o primeiro encontro tête-à-tête entre Fujimori e Montesinos desde setembro de 2000, quando explodiu o escândalo de corrupção que derivou na queda do regime fujimorista, a fuga do ex-líder para o Japão e a posterior detenção do assessor presidencial.

Montesinos, conhecido como o "Rasputin dos Andes", é acusado de criar o grupo Colina, sob a anuência de Fujimori, e de orquestrar a maior rede de corrupção da história contemporânea do Peru. EFE watt/bm/plc

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