Javier Otazu. Lima, 7 abr (EFE).- O ex-presidente peruano Alberto Fujimori recebeu hoje a pena máxima permitida pelo código penal do país, de 25 anos de prisão, por crimes de violação dos direitos humanos, em uma sentença considerada histórica.

O ex-líder ouviu o veredicto com o semblante impassível e imediatamente começou a consultar o advogado de defesa, César Nakazaki, para anunciar que desejava entrar com um recurso para anular a sentença, que foi aceito pela sala especial que o julga.

Vestido formalmente com um paletó preto e uma gravata azul, Fujimori passou a última sessão do julgamento fazendo anotações, com ar sereno, mas visivelmente preocupado.

O médico que cuida do ex-líder, Alejandro Aguinaga, afirmou, no entanto, que ele passava bem neste dia decisivo.

Transtornada, a filha e herdeira política do ex-presidente, Keiko Fujimori, afirmou, ao fim do julgamento que se desenvolveu ao longo de 161 sessões, que a decisão "é uma aberração e destila ódio e vingança".

"Obviamente, não vamos ficar de braços cruzados, vamos sair pacificamente às ruas para apoiar Alberto Fujimori", advertiu.

A filha do ex-presidente afirmou que "milhões se unirão a esta cruzada em reconhecimento ao melhor presidente (entre 1990 e 2000) que o país teve". No entanto, em torno do tribunal havia apenas cerca de 500 pessoas.

Os simpatizantes se depararam com um grupo de sindicalistas contrários a Fujimori, o que derivou em brigas do lado de fora da corte, mas esse foi o único momento de tensão em uma área que, desde segunda-feira à noite, tinha sido tomada pela Polícia.

Fujimori, de 70 anos, foi considerado culpado dos crimes de homicídio qualificado e assassinato com traição, lesões graves e sequestro pelos massacres de Barrios Altos e La Cantuta, que deixaram 25 mortos em 1991 e 1992. Ele também foi condenado pelo sequestro de um jornalista e de um empresário em 1992.

Gisela Ortiz, representante dos parentes dos mortos em La Cantuta, disse estar "obviamente satisfeita: pela primeira vez, o Poder Judiciário responde ao apelo das vítimas", disse à Agência Efe logo após o fim do julgamento.

A leitura da versão resumida da sentença demorou três horas e chamou a atenção de dezenas de jornalistas locais e internacionais, organismos de defesa dos direitos humanos e juristas internacionais que atuavam como observadores.

"É uma mensagem positiva sobre o papel da justiça em um Governo democrático e sobre a proteção aos direitos humanos", disse Maria McFarland, da organização Human Rights Watch, à Agência Efe.

"Além disso, é uma corte nacional que fez justiça, algo pouco comum, e mais em um país onde, há poucos anos, as cortes eram controladas", acrescentou.

Eduardo Bertoni, da fundação para um processo legal, destacou o fato de o tribunal ter qualificado os delitos como crimes de lesa-humanidade, algo que nem sempre acontece em instâncias internacionais.

Havia grande expectativa entre os juristas sobre se o tribunal utilizaria o argumento da "autoria mediata", ou seja, consideraria o acusado responsável como chefe de uma organização criminosa, embora não houvesse provas de ordens diretas para que os delitos fossem cometidos.

O tribunal citou na condenação esta tese da "autoria mediata, que se encontra suficientemente credenciada", em sua sentença de mais de 700 páginas que disponibilizou no site do Poder Judiciário peruano pouco após ser anunciada.

A corte que julgou Fujimori recebeu elogios das duas partes, tanto da Promotoria quanto da defesa, mas Rolando Souza, membro da equipe do ex-presidente, disse, ao fim do processo, que considerava a sentença "excessiva e antidemocrática", porque "viola o direito probatório".

Os fujimoristas convocaram para quarta-feira um comício de protesto contra a decisão judicial, mas, salvo nos bairros próximos ao local onde ocorreu o julgamento, em Lima não havia indícios hoje da tensão de um processo que fez história. EFE lim/db

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