Fujimori deu US$ 325 milhões a assessor para operações secretas

Lima, 29 jun (EFE).- O ex-presidente peruano Alberto Fujimori autorizou o desvio de US$ 325 milhões para contas comandadas por seu então assessor Vladimiro Montesinos para realizar operações secretas de inteligência, revelou hoje um jornal local com base nos indícios reunidos pela justiça do Peru.

EFE |

Uma investigação do jornal "La República" descobriu que os juízes acumularam indícios em dois processos abertos contra o ex-líder (1990-2000) e seu conselheiro de inteligência por desvios de fundos e transferências ao Serviço de Inteligência Nacional (SIN) do Peru, no qual Montesinos figurava como assessor de honra.

A documentação oficial e testemunhos recolhidos pelos magistrados levaram a crer que "entre julho de 1990 e dezembro de 2000 aconteceu uma retirada irregular de fundos públicos de cerca de 916 milhões de novos sóis, o equivalente a aproximadamente US$ 325 milhões", disse o jornal.

Os fundos provinham dos ministérios de Defesa e Interior, do Exército, da Marinha, da Força Aérea e do próprio SIN para duas contas: Reserva 1, que era para benefício de Fujimori, e Reserva 2, para uso exclusivo de Montesinos.

As declarações foram feitas pela empresária Matilde Pinchi Pinchi, uma colaboradora da justiça e ex-testa-de-ferro do ex-assessor presidencial.

De acordo com a Sala Penal Especial da Corte Suprema, os fundos desviados do SIN para a verba secreta de Ações Reservadas foram de 3,7 milhões de novos sóis por mês. Desse valor, dois milhões de novos sóis iam para a Reserva 1, e 725 mil, para a Reserva 2".

A diferença de 975 mil novos sóis era administrada pelo chefe do SIN no pagamento de gratificações para o grupo Colina, responsável pelos massacres de Barrios Altos (1991) e La Cantuta (1992), nos quais morreram 25 pessoas, dentre outros crimes.

Fujimori enfrenta um processo por violação aos direitos humanos justamente pelos casos de Barrios Altos e La Cantuta, e pelo seqüestro do jornalista Gustavo Gorriti e do empresário Samuel Dyer depois do Autogolpe de 1992.

O desvio de fundos começou em 1990 com a criação da verba Ações Reservadas no orçamento do SIN, no qual eram depositadas mensalmente valores que iam de 500 mil novos sóis a 11 milhões de novos sóis.

O ex-presidente peruano deu uma ordem verbal ao chefe formal do SIN - o general reformado Julio Salazar Monroe -, aos ministros respectivos e aos comandantes gerais das forças armadas, indicou o artigo de Edmundo Cruz, chefe da unidade de investigação da República.

Também restou uma ordem escrita, que foi o ofício de 27 de outubro de 1999, dirigido ao Ministério do Interior.

As ordens verbais de Fujimori foram referendadas pelos ministros, chefes militares e responsáveis do SIN interrogados pelos juízes que averiguam os casos.

A investigação assinalou que dos fundos secretos saíram as recompensas de US$ 50 mil para os integrantes do grupo Colina, militares em exercício que foram recrutados para efetuarem uma suposta guerra suja durante a época do terrorismo, e de US$ 100 mil para seus chefes.

Além disso, Fujimori teria utilizado parte de sua conta reservada para financiar os estudos de seus quatro filhos em universidades dos Estados Unidos - o que representou um desembolso de quase US$ 918 mil.

Nas audiências pelo julgamento de Fujimori, Salazar Monroe voltou atrás em suas próprias declarações, nas quais reconheceu a existência das contas e as autorizações do ex-governante.

No entanto, a Procuradoria terá oportunidade amanhã de interrogar Montesinos sobre o assunto, pois o ex-assessor participará pela primeira vez do julgamento de Fujimori. EFE mmr/fh/db

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