Frustração cresce no Haiti por falta de coordenação na ajuda

José Luis Paniagua. Porto Príncipe, 3 fev (EFE).- A frustração é crescente em Porto Príncipe na medida em que passam os dias e a distribuição de comida e provisões continua deficiente, situação que Governo e oposição concordam no Haiti.

EFE |

Centenas de pessoas se reuniram hoje no bairro de Petion Ville para demonstrar sua insatisfação porque, superadas as três semanas desde o terremoto, a entrega de ajuda é irregular, não atende as necessidades da população e, segundo os desabrigados, não está funcionando.

O ato desta quarta-feira só confirma que os esforços não estão superando os problemas de coordenação entre os organismos de ajuda humanitária que chegaram ao país para dar resposta à crise gerada a partir do terremoto de 12 de janeiro. A isso se somam as denúncias de corrupção no tratamento da ajuda por parte das autoridades locais.

Segundo os manifestantes de Petion Ville, o responsável municipal pelo bairro exige dinheiro dos desabrigados em troca de cupons para conseguir um saco de arroz.

A denúncia se repete em outros locais, como no Estádio Nacional, próximo do Palácio Presidencial, onde refugiados acusam os administradores de desviarem a ajuda.

"Não chega nada até nós, mas há pessoas vendendo mercadorias e ganhando dinheiro com isso", disse à agência Efe Scott Gérard, um dos desabrigados.

Partidos da oposição ressaltaram hoje a frustração gerada pela incapacidade do Governo de responder à crise, mas também pela falta de coordenação na distribuição da ajuda.

"A comunidade internacional não facilitou as coisas, as diferentes agências não se entendem entre si, cada uma trabalha sozinha, sem coordenação", disse à agência Efe o opositor Rony Smarth, da social-democrata Organização do Povo em Luta (OPL).

Smarth considerou que o Governo de René Préval deveria ser reforçado com a entrada de "elementos" de outros partidos ou técnicos, para enfrentar o atual momento de crise no país.

Paralelo a isso, os contingentes de ajuda seguem chegando escoltados por capacetes azuis no momento da entrega, embora as agências da própria ONU e, em menor escala, ONGs como Oxfam tentam distribuir as doações sozinhos.

Um deles é o "salário em troca de trabalho", uma forma de ajuda que coloca dinheiro na mão das pessoas para que elas comprem comida, algo que é vendido de maneira completamente caótica na quase totalidade das ruas da capital haitiana.

"Conseguimos chegar ai final da semana passada a 32 mil pessoas e esperamos chegar as 100 mil em breve", indicou à Efe o porta-voz da missão do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Adam Rogers.

Com salários de US$ 5 por dia, uma quantia que se ajusta à média nacional é possível injetar dinheiro na economia, além de envolver dezenas de milhares de haitianos nos trabalhos de limpeza e remoção de escombros.

Enquanto isso, nos escritórios da Polícia Judiciária, transformados em sede governamental após o terremoto, dezenas de meios de comunicação aguardam para saber o destino dos dez americanos que estão sendo investigados por uma suposta tentativa de sequestro de 33 crianças.

"Não sabemos quanto tempo vai demorar, já tomaram depoimento de cinco pessoas e agora estão ouvindo outras cinco", indicou à Efe a ministra haitiana de Comunicação, Marie-Laurence Lassegue.

Ontem, cinco prestaram depoimentos, começando pelas mulheres.

Hoje, os outros cinco integrantes do grupo foram interrogados sobre o episódio do último sábado, por terem tentado tirar do país 33 crianças haitianas.

De acordo a fontes de Aldeias Infantis SOS consultadas pela Efe, grande parte dos familiares das crianças alegaram que um pastor ofereceu um futuro melhor para seus filhos após o terremoto que acabou com a vida de pelo menos 200 mil pessoas. EFE jlp/dm

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