Bia Brito. Lisboa, 26 jul (EFE).- Dona Branca, o famoso caso de uma idosa que roubou seus clientes nos anos 80 e provocou o maior escândalo de fraude em Portugal, volta à tona no país depois que outra portuguesa seguiu os passos da original.

Imortalizada na novela portuguesa "A banqueira do povo", Maria Branca dos Santos, apelidada de "Dona Branca", criou uma organização de empréstimos ilegais que funcionava através de um sistema de pirâmide e que foi desmantelada pelas autoridades portuguesas em 1984.

A "ingênua" septuagenária oferecia um juro elevado -de até 10% por mês -, que só podia ser reembolsado enquanto os novos clientes depositassem mais dinheiro, alimentando um fluxo que necessitava de entradas pecuniárias continuamente.

Porém, quando o dinheiro parou de entrar, o sistema entrou em colapso.

Vinte e cinco anos mais tarde, "Dona Branca de Almada" - apelido dado devido à cidade situada nos arredores de Lisboa onde vive e trabalha a nova especuladora - vem à tona em Portugal por um caso semelhante, investigado pela Polícia após receber quatro denúncias.

As autoridades judiciais começaram a ouvir esta semana os enganados pela suposta nova "banqueira do povo", que alegou inocência.

Em entrevista divulgada pela imprensa portuguesa, a acusada disse não ter "enganado ninguém" e alegou que muitas vezes era ela própria a enganada, já que costumava "receber cheques sem fundo".

Até o momento, o negócio de Dona Branca de Almada não ganhou as proporções da organização liderada pela original, que levantou quantias superiores a 17,5 bilhões de escudos no começo dos anos 80, o que equivalia a US$ 130 milhões na época.

O negócio da especuladora, que atraía principalmente aposentados e pessoas de baixa renda, começou no final da década de 70, mas foi a partir de 1983 que ganhou força.

Por causa de uma entrevista publicada em uma revista de Lisboa, a já instável pirâmide arrecadou em apenas cinco dias o valor de 1,4 bilhão de escudos (cerca de US$ 10 milhões).

Na reportagem, Maria Branca dos Santos se apresentava como uma senhora amável e honesta, mas sobretudo "amiga dos pobres".

Mesmo assim, foi acusada e, aos 76 anos, condenada a dez anos de prisão. Por razões de saúde, no entanto, obteve a liberdade antes de morrer, em 1992, aos 80.

Os dois casos - Dona Branca e Dona Branca de Almada - não só coincidem em gênero e tipo de negócio empregado, já que a original e a cópia surgiram em épocas de forte recessão econômica.

Se atualmente a onda de crédito fácil nos bancos foi interrompida abruptamente pela quebra do sistema financeiro mundial, naquela época a forte recessão sofrida nos primeiros anos da década de 80 também serviu como chamariz ao negócio.

A imagem de uma senhora bondosa e de cabelos grisalhos -que lembra uma mãe que não hesita em ajudar os filhos- pode ser irresistível em tempos difíceis.

A diferença é que a original, uma senhora quase analfabeta, que conquistou a confiança dos clientes, que inclusive protestaram pela intervenção judicial no caso, parecia mais preocupada com o povo que sua "sucessora".

"Não trabalho sem cobrar", deixou claro a nova Dona Branca. EFE bbr/db

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