Fraude em eleição afegã é detectada em gravação

Comissão Eleitoral desqualificou mais de 21 candidatos em razão de processos para influenciar e comprar votos

The New York Times |

Em uma gravação, dois homens falam dari, com sotaque da cidade de Herat, enquanto negociam os termos para influenciar mais de uma dúzia de disputas nas eleições afegãs.

Um dos homens, segundo a Comissão Eleitoral Independente do país, é Irshad Abdul Rashid, um funcionário de baixo escalão na sede da Comissão em Cabul. Na fita, Irshad soa por vezes iludido e cínico.

A voz do outro homem é bem conhecida por milhões de afegãos como a de Ismail Khan, antigo senhor de guerra que por muito tempo controlou Herat como seu feudo pessoal e agora é membro do gabinete do presidente Hamid Karzai. Ele parece solícito, paternalista e insinuante – um grande homem lidando com um inferior que afirma ter controle sobre algo que ele quer: a capacidade de transformar uma meia dúzia de candidatos parlamentares vencedores em perdedores, e os perdedores, que eram os favoritos de Khan, em vencedores.

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Ahmad Zia Rafat, membro da Comissão Eleitoral (D), anuncia a anulação da eleição de vários concorrentes (21/11/2010)
"Quando você fala, você parece preocupado", diz Khan. "Tenho medo que você estrague tudo".

"Para ser honesto, Vossa Excelência", Irshad responde, "precisamos nos preocupar, porque estamos sob pressão aqui".

Em uma eleição tão cheia de fraudes que 1,3 milhões de votos – cerca de um quarto do total – foram descartados, o esquema dos dois homens foi apenas uma pequena fraude. Mas ele diz muito sobre a corrupção em torno das eleições do Afeganistão – e quão pouco ela beneficiou os poderosos, em parte por causa do policiamento agressivo realizado nos locais de votação no dia 18 de setembro pela Comissão Eleitoral Independente e suas consequências.

No domingo, a comissão deu sua decisão final sobre mais de 2 mil acusações, desqualificando mais de 21 candidatos em razão de fraude eleitoral; quatro outros foram excluídos anteriormente. A ação de domingo permitiu que a comissão eleitoral certifique os resultados da eleição, que devem ser anunciados ainda nesta semana.

Treze dos 21 candidatos finais desqualificados são partidários de Karzai. Entre eles está um primo do presidente, Hashmat Karzai, e irmãos de vários políticos de alto escalão no governo, além de sete membros do Parlamento anterior. "É dramático", disse o comissário eleitoral Zekrai Barakzay. "Isso certamente demonstra que a comissão é independente e sua decisão, definitiva".

Waheed Omer, porta-voz do Presidente Karzai, não quis comentar o assunto. Hashmat Karzai disse que a denúncia da comissão foi "motivada por rivalidades políticas".

Esforços

Apesar dos esforços de seus adeptos fervorosos, o presidente Karzai provavelmente acabará com um Parlamento que terá uma minoria ainda menor de membros leais do que ele e outros analistas políticos esperavam.

A fraude generalizada que o ajudou a vencer a eleição presidencial do ano passado não deu certo este ano. Até mesmo seus colegas pashtuns serão subrrepresentados.

Mas em nenhum lugar, ao que parece, a fraude fracassou tão dramaticamente quanto nos esforços de Khan em voltar a ser o poderoso que já foi. Uma investigação está em andamento sobre a origem da gravação, que consiste em duas conversas telefônicas totalizando 43 minutos em dias sucessivos entre Khan e Irshad.

Prova

Um conhecido de um funcionário afegão do New York Times tentou vender uma cópia da fita, mas o jornal tem uma política contrária ao pagamento de fontes de notícias. Posteriormente o jornal obteve  uma cópia de um candidato parlamentar de Herat que suspeita que a fraude de Khan tenha modificado os resultados das eleições contra ele.

O porta-voz de Khan, Mohammad Aman Shaikh Ul Islami, disse que ele nunca falou com alguém da comissão eleitoral ao telefone e que um computador pode ter sido usado para fabricar a fita ou alguém estava imitando a voz de Khan.

Irshad era um funcionário temporário no departamento da comissão eleitoral que "não tinha acesso ao banco de dados das urnas", disse um oficial da eleição, falando anonimamente por causa da investigação sobre a fita. "Ele era um ninguém".

Para um ninguém, Irshad tinha a atenção, ainda que muitas vezes frustrada, de Khan.

As conversas gravadas sugerem que Khan teve o prazer de descobrir uma fonte disposta em Irshad, mas que ele veio a sentir que Irshad se tornava cada vez mais exigente e difícil – até mesmo incompetente. Na gravação, Irshad diz a Khan que perdeu o pedaço de papel em que havia escrito os nomes dos candidatos que deveriam ganhar e perder por medo de ser revistado na comissão eleitoral.

Ele teme por sua saúde, teme ser pego e teme a desaprovação de Deus. "Eu não seria pecador se fizesse este trabalho?", pergunta ele, ao que Khan responde rindo: "Acredite, se você fizer esse trabalho, finja que foi a Meca".

Pagamento

Não está claro quanto Khan pagava a Irshad, mas aparentemente era um valor substancial. Quando ele pede que uma candidata perca, Irshad suspira e diz suavemente: "Lá se vão US$ 20 mil", aparentemente uma referência a um suborno que a mulher lhe tinha dado para garantir que venceria. Khan disse a Irshad que queria que um membro do Parlamento de Herat, Aziz Ahmad Nadem, perdesse.

Em uma entrevista, Nadem disse ter ficado inicialmente confuso quando a comissão eleitoral anulou 6  mil votos que recebeu, mas que "depois de ouvir a gravação, vimos o porquê: a exclusão dos nossos votos foi projetada com precisão por Khan e seu peão na comissão".

No entanto, se Khan tivesse subornado Irshad para, de fato, acabar com Nadem, ele perdeu dinheiro. Nadem não apenas conquistou sua cadeira no domingo, como foi um dos 21 candidatos desqualificados pela Comissão Eleitoral de Reclamações – por alguma fraude não informada.

*Por Rod Nordland e reportagem de Sharifullah Sahak, Sangar Rahimi e Ruhullah Khapalwak

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