A francesa Clotilde Reiss compareceu neste sábado ante o tribunal de Terã que realiza o julgamento em massa dos manifestantes que participaram nos protestos contra a reeleição do presidente Mahmud Ahmadineja e pediu perdão às autoridades, informou a agência iraniana Isna.

"Peço perdão ao país, ao povo e ao tribunal do Irã e espero que me indultem", afirmou ante o tribunal. "A presença na prisão é dura, mas meus guardiães e os agentes encarregados de realizar os interrogatórios não se portarem mal comigo e não tive problemas particulares na prisão", declarou ainda, mencionando a pressão psicológica em que se encontra. A francesa, de 24 anos e assistente, foi detida em 1º de julho passado.

Sua presença este sábado no banco dos réus - junto a uma funcionária local da embaixada da França, um funcionário local da embaixada britânica e dezenas de outras pessoas julgadas por seu papel nas manifestações pós-eleitorais - surpreendeu os meios diplomáticos e seus familiares.

"Eu escrevi um relatório de uma página e o enviei ao chefe do Instituto Francês de Pesquisa no Irã, que é subordinado ao serviço cultural da ambaixada da França", depôs Reiss.

"Os motivos de minha participação nas manifestações foram de ordem pessoal", declarou a francesa, pedindo perdão ao tribunal.

Segundo a Isna, a universitária é acusada de escrever um relatório sobre as manifestaçòes na Universidade de Ispahan (centro) e de ter incentivado os protestos.

Indagada sobre o relatório que escreveu, ela afirmou que o mesmo não se tratava de um texto técnico para a Organização de Energia Atômica francesa e sim um documento sobre a política e a sociedade iranianas.

As pessoas julgadas correm o risco de serem condenadas a mais de cinco anos de prisão. Os réus considerados culpados de serem "mohareb" (inimigos de Deus) podem ser condenados à pena de morte.

Um funcionário local da embaixada da Grã-Bretanha também foi acusado de espionagem pelo tribunal de Teerã.

Segundo a justiça, o empregado, Hossein Rasam, declarou ao tribunal que a embaixada britânica pediu a seus funcionários que se fizessem presentes nos lugares onde aconteceram os distúrbios durante as manifestações posteriores à contestada reeleição de Ahmadinejad, em 12 de junho.

Londres definiu como "completamente inaceptable" a acusação de Teerã. "Podemos confirmar que Hossein Rasam figura entre os acusados no julgamento em massa que começou em Teeraã. Isso é completamente inaceitável e contradiz diretamente as garantias que recebemos de altos dirigentes iranianos em reiteradas ocasiões", afirmou uma porta-voz do ministério britâncio das Relações Exteriores.

O ministro das Relações Exteriores britânico, David Miliband, por sua vez, disse que o julgamento é o último ato de uma série de provocações do Irã.

Miliband enfatizou que está muito preocupado com as acusações injustificadas contra Hossein Rassam, o funcionário de seu governo e contra os empregados da embaixada francesa e outros manifestantes.

A França imediatamente pediu a libertação de Clotilde Reiss e de uma funcionária franco-iraniana de sua embaixada em Teerã, afirmando que as acusações contra elas "carecem de qualquer fundamento".

Já a presidência da União Europeia considerou que o julgamento no Irã contra funcionários das embaixadas da Grã-Bretanha e da França é um ato contra toda a União Europeia e será tratado de igual maneira.

"As ações contra um país do organismo europeu, contra seus cidadãos ou contra funcionários de suas embaixadas são consideradas contra toda a União Europeia e assim serão tratadas", indica a presidência, acrescentando que o julgamento será acompanhado atentamente e que o bloco pedirá que os funcionários em questão sejam libertados o quanto antes.

Quase 2.000 pessoas foram detidas durante os distúrbios ocorridos após a polêmica reeleição do presidente Mahmud Ahmadinejad, em 12 de junho.

De acordo com o saldo oficial, 30 pessoas morreram nestes enfrentamentos. As autoridades reconheceram também a morte de dois prisioneiros com meningite. A imprensa falou na morte de pelo menos quatro pessoas na prisão.

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