França vai indenizar as vítimas de seus testes nucleares

Treze anos após ter colocado um ponto final em suas campanhas de testes nucleares, a França apresentou nesta terça-feira seu primeiro plano de indenização das vítimas, no valor de 10 milhões de euros.

AFP |

Quase 150.000 pessoas, trabalhadores civis e militares, participaram de 1960 a 1996 dos 210 testes realizados pela França no Saara argelino e, depois, na Polinésia francesa. O disposivo envolverá também as populações destas duas regiões.

"Algumas centenas de pessoas tiveram câncer mais tarde, vítimas de radiações", segundo o ministro da Defesa, Hervé Morin.

Ele admitiu quatro "problemas de confinamento" durante os testes realizados no Saara e dez episódios de despejos radioativos significativos, em zonas circunscritas durante os testes aéreos na Polinésia.

"Treze anos após o fim dos testes no Pacífico e após o tratado de interdição dos testes confirmados pela França, era hora de nosso país ficar em paz consigo mesmo", disse. Associações de veteranos batalharam durante anos para fazer valer seus direitos.

O ministro se recusou, no entanto, a instruir o processo dos governos precedentes, garantindo que o Estado havia "conduzido estes testes aplicando as mais estritas medidas de segurança".

Morin confirmou que os dossiês de indenização serão confiados a um comitê formado em sua maioria por médicos e presidido por um advogado. Este comitê terá seis meses para apresentar uma proposta de indenização que deverá ainda ser avalizada pelo ministro da Defesa.

"Não caberá mais à vítima provar que sua doença é decorrente dos testes, mas ao Estado contestar", explicou Hervé Morin.

Da mesma forma, a lista das doenças que abrem direito à indenização será "inspirada na estabelecida por uma instância da ONU, o Comitê científico das Nações Unidas para o estudo dos efeitos dos raios ionizantes (UNSCAER)".

Esta lista, com 18 doenças (câncer da tireóide, de pulmão, de mama, leucemias...) é "muito mais ampla" do que a da segurança social francesa, disse Morin, indicando que o projeto será transmitido ao Parlamento antes do fim de junho.

Para o presidente da Associação dos Veteranos dos Testes Nucleares (AVEN) Michel Verger, este plano apresenta "avanços não negligenciáveis" apesar de alguns pontos ainda serem passíveis de aperfeiçoamento.

Verger comemorou que nenhum limite de irradiação tenha sido fixado, o que teria excluído a quase totalidade dos veteranos.

Um outro veterano, Serge Vauley, explicou nesta terça-feira ao jornal Le Figaro como, embarcado num porta-aviões Foch no Pacífico em 1966, como ele pôde ser exposto às radiações.

"Com os braços cruzados sobre os olhos para evitar o flash, de costas para a bomba, tínhamos de nos virar logo antes da explosão para admirar a potência de fogo da França", relatou, dizendo que hoje tem cavidades enormes nos pulmões.

ha/lm/sd

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG